It was 50 years ago today

Imagem: reprodução

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Marcelo Araújo

Há 50 anos, o lançamento de um disco marcou para sempre a música. No dia 26 de maio de 1967, no Reino Unido, e no dia do 2 de junho, nos Estados Unidos, o álbum Sgt.Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, tornou-se um ícone da cultura pop, tendo vendido ao longo dos anos mais de 30 milhões de cópias.

O Sgt. Pepper’s era inovação em todos os aspectos, a começar pela capa, uma obra de pop art concebida por Peter Blake e Jann Haworth a partir de um desenho de Paul McCartney. Em uma colagem colorida, Macca, John Lennon, Ringo Starr e George Harrison aparecem ao lado de personagens famosos como Bob Dylan, Fred Astaire, o bruxo Aleister Crowley, o psiquiatra Carl Jung, o comediante Lenny Bruce, a atriz Mae West, o compositor erudito contemporâneo Karlheinz Stockhausen, Edgar Allan Poe, Aldous Huxley, Dylan Thomas, Tony Curtis, Marilyn Monroe, William Burroughs e Stan Laurel, entre vários outros.

Em relação ao conteúdo, o disco reúne algumas das obras-primas do Quarteto de Liverpool, como a faixa-título, With a Little Help from My Friends, Lucy in the Sky With Diamonds, She’s Leaving Home, Lovely Rita e Being for the Benefit of Mr. Kite! Essas faixas registram personagens antológicos que saíram das mentes de John e Paul, como o próprio Sargento Pimenta e sua Banda dos Corações Solitários, a garota que foge de casa cedo para deixar a tutela dos pais e ganhar vida própria, a adorável empregada doméstica Rita, o rapaz que fica alto com a ajuda dos amigos ou o personagem que narra a rotina de um dia de vida. Cada canção conta histórias, crônicas daquele louco e efervescente ano de 1967, que ainda engatinhava quando o LP chegou às lojas.

No que se refere à temática, sempre se falou muito do caráter conceitual do disco. Há inclusive controvérsia sobre a veracidade do fato, já que as músicas são independentes umas das outras, ao contrário de álbuns conceituais, que virariam febre na década de 70 com o rock progressivo. O que se comenta é que, de fato, o conceito pensado por Paul McCartney em uma viagem de avião do Quênia para a Inglaterra seria o da banda do Sgt. Pepper’s gravando um disco e não a narrativa de um único enredo.

As histórias envolvendo o clássico LP já renderam livros e livros. Não vou contá-las aqui, já que as pessoas podem buscar o farto material bibliográfico, sonoro e visual existente no mundo real ou virtual. Vale se concentrar em certas questões.

O Sgt. Pepper’s figura como um dos marcos do chamado rock psicodélico, que explodiu na segunda metade dos anos 60. A corrente tinha como característica a tentativa de reproduzir na música experiências com alucinógenos por meio do uso de recursos como efeitos eletrônicos e a improvisação.

De fato, Sgt. Pepper’s é um disco psicodélico. Não constitui segredo para ninguém que na época os Beatles andavam mergulhados em LSD e outros baratos, no entanto, o resultado deste riquíssimo manancial não se deve encarar como qualquer devaneio de uma trupe de chapados. Pelo contrário, trata-se de um trabalho sério, com a batuta na produção, na engenharia sonora e na instrumentação do competentíssimo George Martin, tido como o “quinto Beatle”. Há elementos da música erudita contemporânea, das bandas marciais, do som dos realejos nas praças, do jazz, da música indiana, do foxtrot, da valsa e de vários outros gêneros, com uma leitura personalíssima que finalmente deu ao rock status de arte sem abandonar a energia primária desta música e a potência das melodias dos Beatles.

Quem quiser aproveitar os 50 anos da comemoração do Sgt. Pepper’s para se deliciar, há pacotes bem interessantes na área. Um é o relançamento em CD e vinil com nova mixagem e faixas extra. Se preferir investimento maior, saiu uma caixa que, além do CD e LP, reúne DVD, Blu-ray, fotos, vídeos, um livro e mais alguns brindes. Para os fãs, nunca é demais curtir a Banda do Sargento Pimenta, mesmo meio século depois.

Marcelo Araújo é autor dos livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons. Também publicou textos em na revista Bacanal Volume 2 e no fanzine Lobotomia.

Mortes de roqueiros marcam maio

Fotos: divulgação

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Marcelo Araújo

O mês de maio trouxe duros golpes aos fãs de rock aqui e lá fora. Em pouco mais de uma semana, perdemos Chris Cornell, vocalista das bandas Soundgarden, Audioslave e Temple of the Dog, o cantor Kid Vinil, e Gregg Allman, vocalista e instrumentista da Allman Brothers Band.

O fim mais trágico foi o de Chris Cornell, que, conforme indicam as investigações, cometeu suicídio aos 52 anos. Ele havia se apresentado com o Soundgarden na noite de 18 de maio, em Detroit. Um amigo encontrou seu corpo no hotel em que o artista se hospedara. Ironicamente, a última música cantada por Chris foi In My Time of Dying (Na Hora da Minha Morte), um cover do Led Zeppelin que o Soundgarden interpretou naquele concerto.

Com partida precoce, Chris Cornell é um dos ícones do movimento grunge, que estourou mundialmente no começo dos anos 90, projetando da cidade americana de Seattle para o mundo grupos como Nirvana, Mudhoney,  Alice in Chains, Pearl Jam e o próprio Soundgarden.

O quarteto encabeçado por Cornell começou suas atividades em 1984 e tinha como marcas o som pesado e a voz rasgada do cantor. Chris esteve no Brasil em três ocasiões, duas em carreira solo e uma com o Soundgarden. Quem teve a sorte de vê-lo ao vivo certamente guardará para o resto da vida a imagem de sua performance. Infelizmente, não fui um desses bem-aventurados, ainda que tenha assistido a shows das demais instituições do grunge, movimento que chutou o balde resgatando a velha energia do rock.

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Kid Vinil é um personagem peculiar da música brasileira desde que se tornou conhecido, no começo da década de 80. Ele nos deixou no dia 19. Estava internado há mais de um mês, após passar mal em um show na cidade mineira de Conselheiro Lafaiete. Além de vocalista da banda Magazine, dos hits Tic Tic Nervoso e Eu Sou Boy, atuou como um educador e divulgador do rock’n’roll, nas funções de jornalista, radialista, VJ e DJ.

Em seus programas no rádio e na TV ou em textos na imprensa, em uma época em que nem sonhávamos com internet, ele nos apresentava as novidades, principalmente do rock mais alternativo. Também trabalhou como gerente da área internacional da gravadora Trama, sendo responsável pela edição no Brasil de álbuns como os do selo nova-iorquino Matador.

Tive o prazer de conhecer Kid Vinil e de entrevistá-lo. Figura simpática e inteligente que vai fazer falta na cena nacional, pelo seu carisma e pela enorme bagagem de conhecimentos musicais que detinha.

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No último sábado, 27 de maio, Gregg Allman faleceu aos 69 anos, em sua casa na cidade de Savannah, na Georgia, nos Estados Unidos. Há algum tempo, enfrentava problemas de saúde relacionados ao fígado e chegou a fazer um transplante deste órgão. Cantor, guitarrista e tecladista, Gregg será lembrado como a voz da Allman Brothers Band, que fundou no final dos anos 60 com o irmão guitarrista Duane.

Os Allman Brothers fazem parte do chamado Southern Rock (rock sulista) norte-americano. Com muita base no blues, essa corrente também coloca em seu caldeirão rítmico influências do country, do folk, do gospel, do soul, do rhythm’n’blues, do jazz e do rock pesado. A força da voz e do som de Gregg permanece no coração e na memória dos seus fãs, conquistados em todos esses anos.

Lamentamos essas perdas, porém, como diz um verso de Midnight Rider, dos Allman Brothers, “the road goes on forever” (a estrada segue para sempre).

Marcelo Araújo é autor dos livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons. Também publicou textos em na revista Bacanal Volume 2 e no fanzine Lobotomia.

Filme de terror inova ao abordar racismo

Imagem: divulgação

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Marcelo Araújo

Um dos melhores filmes de terror da atual safra é Corra! (Get Out), dirigido, produzido e escrito por Jordan Peele e que estreia aqui no Brasil na próxima quinta-feira (18). Com enredo bem original, a produção também se destaca por tratar do tema racismo.

Corra! conta a história de Chris, interpretado pelo britânico Daniel Kaluuya, um jovem negro que namora uma moça branca, Rose, vivida por Allison Williams. Chris e Rose viajam para conhecer a família dela, em uma pequena cidade do interior americano.

Os pais da jovem, Dean (Bradley Whitford) e Missy (Catherine Keener), tratam o rapaz com enorme receptividade. Isso não impede que ele perceba certos fatos, como a presença de  empregados negros que agem como autômatos, situação pouco condizente com a atmosfera liberal que se tenta transmitir.  Destaque-se a atitude irônica do irmão de Rose, Jeremy, personificado por Caleb Landry Jones, especialista na atuação em papéis perturbadores.

Após a sogra, que é psiquiatra, submetê-lo a uma sessão de hipnose, o moço começa a notar que, na verdade, se encontra em um ambiente não tão hospitaleiro. A desconfiança cresce após uma festa com pessoas de comportamento estranho, tentando demonstrar de forma exagerada que não possuem preconceito racial.

Não dá para detalhar a trama para não dar spoiler. Podemos adiantar que não se trata de outra narrativa tradicional de fantasmas ou exorcismo em uma velha propriedade rural dos Estados Unidos. Mais do que provocar sustos, o diretor Jordan Peele mexe com o espectador ao abordar o racismo dissimulado, muitas vezes tão agressivo quanto o explícito.

Bela estreia de Jordan Peele na direção de longas-metragens, Corra! chamou bastante a atenção lá fora. Certamente, o público brasileiro que aprecia o gênero do horror vai gostar dessa película, que consegue ser assustadora sem cair em lugares comuns.

 

Marcelo Araújo é autor dos livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons. Também publicou textos em na revista Bacanal Volume 2 e no fanzine Lobotomia.

 

Assista ao trailer de Corra!