Evangelho segundo a lei do cão

Imagem: reprodução

messaias

Marcelo Araújo 

Rebeliões nos presídios, facções criminosas degolando rivais, ônibus queimados nas ruas, delegacias de polícia atacadas, atentados nas ruas. Ainda que mais intenso, o cenário da criminalidade no Brasil hoje guarda semelhanças com o de 2006, época do lançamento dos quadrinhos O Messias, escrito por Gonçalo Junior e com desenhos de Flávio Luiz. Na ocasião, o PCC, um dos protagonistas da crise atual, barbarizava no estado de São Paulo.

Vale resgatar esta HQ publicada pela Opera Graphica, cujo enredo se passa na cidade do Rio de Janeiro. O dito Messias nasce em condições miraculosas em uma favela carioca. Após o assassinato da mãe grávida e dos demais membros da família, o bebê é retirado ileso do útero. Dado o fato surpreendente, a criança acaba venerada na comunidade como um salvador. A mãe adotiva recebe, inclusive, a visita de três reis magos modernos, de terno e óculos escuros. Só que ao invés de trazerem mirra, ouro e incenso, chegam com cocaína, maconha e uma metralhadora.

Quando cresce, o Messias dos morros não se transforma num líder religioso pacifista como aquele que deu origem ao cristianismo. Vira, sim, chefe do crime organizado e espalha uma onda de terror pela Cidade Maravilhosa, praticando roubos e assassinatos. Enfrentando a polícia sem qualquer temor, o anti-herói conquista espaço na cobertura da imprensa, tornando-se lenda do banditismo. A cada passo na sarjeta da fama se desenha seu grand finale.

Sem palavras

O realismo cru dá  a tônica de O Messias, tanto pelo enredo de Gonçalo Junior quanto pela arte de Flávio Luiz. Chama atenção não existir qualquer diálogo escrito nas 125 páginas dessa banda desenhada. Eventualmente, aparecem onomatopeias. Diz o clichê que uma imagem fala mais que mil palavras. Aqui, de fato, os desenhos contam tudo, em preto-e-branco e com vivacidade assustadora. Inclusive, o autor Gonçalo Junior afirmou quando lançou a publicação que preferiu uma obra muda porque em territórios dominados pelo crime impera o silêncio.

A saga de denúncia social da obra de Gonçalo e Flávio desnuda o messianismo que aflora nos bolsões de miséria eternamente abandonados pelo poder público brasileiro, onde não há segurança, saúde, educação, saneamento, cultura, lazer e nada mais. Nesses redutos da desesperança, até mesmo os profetas correm o risco de sucumbir às tentações. E de vez em quando sucumbem!

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