Jerzy Jerzemany

Texto e desenho: Marcelo Araújo 

jerzy

Mais um conto produzido inspirado em desenhos de minha própria autoria, neste começo de 2017. Agora, narro aqui um pouco da vida de Jerzy Jerzemany, um pianista polonês tentando a vida nos meios musicais de New York City

 

Ele veio da Polônia e lá já desenvolvia carreira de pianista de jazz nos palcos e nos estúdios.

Emigrou para New York faz dois anos. Precisou arrumar um bico antes de emplacar a carreira de músico profissional. Trabalhou meses, à noite, como garçom de um restaurante italiano.

Nesse lugar, um velho piano estava abandonado no canto. Jerzy se sentava para tocar um pouco quando o expediente acabava. Um dia, o dono o viu se exercitando nas teclas. Ficou tão impressionado que acabou trocando o polonês de posto. Há tempos procurava substituto para o pianista anterior.

Para trocar as bandejas pelo piano, Jerzemany precisou adequar o talento ao gosto dos frequentadores. Apresentava-se normalmente entre sete e dez da noite. Alguns standards como These Foolish Things, Over the Rainbow e As Time Goes By estavam liberados, mas deveria inserir repertório pop radiofônico no repertório.

Teve que aprender músicas de Madonna, Elton John e Paul Simon para satisfazer os apreciadores das lasanhas, canelones e raviólis, que ali chegavam no happy hour. Improvisos longos, nem pensar. Era ficar indo e vindo em torno da melodia.

Não foi fácil sair das influências de Thelonious Monk, Bud Powell, Art Tatum, Bill Evans e de seu conterrâneo Krzysztof Komeda para tocar baladas que considerava excessivamente comerciais. No entanto, conseguiu, às custas de audições em cima de um repertório básico passado pelo patrão, Giuseppe. Saíam Around Midnight e A Night in Tunisia para entrarem em cena Don’t Let The Sun Go Down on Me e Bridge Over Troubled Water.

“Melhor isso do que horas em pé anotando pedidos e carregando bandejas”, pensava Jerzy. Mesmo não interpretando seus autores favoritos e nem demonstrando muito a sua técnica, até que se divertia naquelas sessões de piano pop.

O emprego no restaurante italiano lhe garantia renda razoável e não lhe tomava tanto tempo. Por volta das dez da noite, Jerzy corria para jam sessions nos clubes de jazz. E aí realmente a música valia a pena. Logo se enturmou com a rapaziada que tocava nos pontos mais agitados.

Entre músicos americanos, japoneses, cubanos, brasileiros, ingleses, franceses e egressos do leste europeu, como ele mesmo; entre drinks criativos da casa e a vodca tão apreciada; entre saxofonistas, bateristas, pianistas, trompetistas, trombonistas, vibrafonistas, percussionistas, baixistas e guitarristas, o som rolava solto até a madrugada profunda.

Bebop, hard bop, cool, free jazz, bossa nova e até sons orientais, o que não faltava era liberdade para improvisar, num espaço absolutamente diverso daquele do começo da noite, no qual produzia a música ambiente para garfadas nas pastas e goles no vinho da casa.

Demonstrado o talento, Jerzy conseguiu até três clubes de jazz para se apresentar pelo menos uma vez por semana em cada um. Suas interpretações chamam a atenção do público e de críticos por conta daquele estilo europeu de trazer ao jazz influências como as da música erudita.

Já o chamaram para gravar um disco por meio de um pequeno selo. Para esse trabalho de estreia em solo norte-americano decidiu se dedicar apenas a autores poloneses, como o mentor intelectual Komeda.

Um dos caras que Jerzemany conheceu pelas noites nova-iorquinas foi o compositor, arranjador e pianista Julie Lollipop, com quem costuma a trocar figurinhas sobre a concepção de arranjos. Justamente com Lollipop Jerzy começou a pensar na produção de um álbum com quarteto de cordas. “Arranjar  exige que você trabalhe duro. Muita concentração e estudo. Agora criatividade é fundamental, do contrário você fica acorrentado à forma”, Julie costuma a dizer, enquanto o amigo polonês sorri suavemente.

As coisas avançam para Jerzy, desde aquela manhã em que chegou ao aeroporto JFK, com as economias de anos para tentar a sorte em New York. Naquele mesmo dia, foi morar na casa do tio Haskel, no Bronx. Tio Haskel bebe muita vodca e cozinha que é uma maravilha.

O jovem instrumentista polonês continua vivendo no mesmo bairro, porém com a grana que tira aluga  um apartamento para si e até comprou um piano elétrico, no qual se debruça por horas, antes de partir para as jams e gravações nos estúdios.

Sua fama começa a crescer e recebeu convites para tocar em Boston, Washington e Chicago. Com essas possibilidades na agenda, um amigo lhe indicou um manager para catapultar a carreira do polonês em solo americano. Vamos aguardar. Talvez o vejamos em breve no Blue Note.

Acreditem, mesmo após as mudanças, Jerzy Jerzemany passa naquele restaurante italiano às vezes, para tocar standards e canções pop. Dizem que tomou gosto por esse estilo e até começou a escutar mais pop. Falam que está preparando um repertório só de Billy Joel para tocar ali e em outros lugares. As más línguas até disseram que o polonês está se vendendo e buscando dinheiro fácil. Bobagem. Ele garante que é por diversão mesmo. Além do mais, quando toca no italiano, fora o cachê, a pasta e o vinho são por conta da casa

 

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