John Babaovo

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Texto e desenho: Marcelo Araújo

Um conto inédito, o segundo que escrevo neste ano de 2017 e o primeiro que publico. Chama-se John Babaovo e estará em um livro a ser lançado.

Ele tem barba branca imensa, maior que a do Papai Noel. Usa camisas de manga comprida, suspensório, calça de algodão, botas e chapéu. Ninguém sabe sua idade, mas parece velho. Diz uma lenda que anda pela floresta há séculos. Meu bisavô já falava dele. Pode ser um bruxo, um fantasma, um espírito da floresta ou talvez um homem comum que se transformou em algo diferente.

Ele se chama John Babaovo. Por que o sobrenome Babaovo? Ninguém sabe. Talvez tenha a ver com o fato de que goste de comer e lamber ovos, comentam. Ou pode ter relação com alguma palavra de origem estranha cuja sonoridade se assemelhe a baba-ovo, como Babauvu. Hipóteses.

John Babaovo vaga pelo meio do mato. É protetor dos bichos da floresta, conversa com eles e os defende dos caçadores. Falam que quando o caçador entra na mata com sua espingarda, o velho dá gritos semelhantes aos de pássaros, que avisam os animais do perigo. Quando alguém vai à floresta com a intenção de pegar os animais ou fazer outra coisa errada, John Babaovo aparece e avisa:

– Vá embora, vagabundo! Esse lugar é amaldiçoado.

Reza ainda a lenda que entidades do além vagueiam por ali. Fazem os viajantes se perderem para matá-los. Muitos andaram por aqueles caminhos e depois nunca mais foram vistos. John Babaovo conhece bem essas entidades.

Babaovo mora dentro de uma árvore gigante e velha. Quando dá cinco da tarde, duendes barbudos e outros amigos encantados visitam John para tomar um delicioso chá, com direito a pães, bolos, biscoitos, tortas, chá, café e chocolate quente. A refeição é servida enquanto a turma escuta Jethro Tull e Iron Butterfly, vejam vocês. Nosso velhinho gosta de rock. Se passar ali por perto e escutar In-a-gadda-da-vidda soando pelo mato significa que está rolando o chá de Babaovo.

Também se diz que o velhinho eventualmente aparece andando com um saco nas costas. Lá virão mais comparações com Papai Noel. Alguns falam que é lixo que as pessoas jogaram no chão que ele cata. Outros comentam que o velho carrega ouro e pedras preciosas.

Quanto a essa história de tesouros, escutem essa. Certa vez, três ladrões tentaram roubar o saco de Babaovo. Ameaçaram o velho com facas e bateram bastante nele, a ponto de deixá-lo caído no chão. Contam que quando abriram o saco viram os tais tesouros. Seus olhos brilharam.

– Tchau, velho otário. Obrigado pelo presente – disse um dos bandidos, com ironia.

– Não vai precisar mesmo. Pra que ia querer tudo isso, no meio do mato? – debochou outro.

– Estamos ricos agora. Vamos – falou o terceiro.

– Vão se arrepender pela ganância, vagabundos! Essa riqueza vai ser a sua desgraça – alertou John Babaovo.

Os três ladrões fugiram pelo mato, rindo. Tinham deixado o carro parado perto dali. Certa vez, ouviram falar que na floresta tinha um velho que andava com um saco cheio de tesouros. Decidiram ir até lá para roubá-lo.

Era fim de tarde e eles esperavam chegar logo até o veículo. Na vinda, levaram apenas vinte minutos para encontrar a clareira onde falavam que o velho Babaovo aparecia com frequência.

Andaram quase uma hora e nada de verem o automóvel. Começaram a ficar preocupados, achando que tinham se perdido. Já estava escuro.

– Não se preocupem. Passamos a noite aqui e amanhã cedo, quando estiver claro, a gente vai atrás do carro. O importante é que temos isso. O ladrão que acabara de falar abriu o saco e então deu um grito de dor que assustou os outros dois. Uma pequena cobra pulou para fora do saco e saiu rastejando pelo chão, sumindo para dentro de uma moita.

– Minha mão está ardendo – gritou o ladrão desesperado.

Foi então que ele começou a se sentir tonto e a dizer que não conseguia respirar. Em instantes, caiu no chão. Quando foram ver estava morto.

Os dois olharam para o chão e viram o saco. Hesitaram antes de pegar, com medo que houvesse mais alguma outra cobra dentro. Um deles pisou o saco e depois o pegou com a mão, sob os olhos atentos do comparsa.

– Só tem as joias.

– Velho traiçoeiro.

Ambos olharam para o companheiro, morto no chão.

– E agora?

– Vamos.

O outro ladrão acabou ficando desconfiado do colega segurando as joias sozinho.

“Somos só nós dois. E se esse canalha resolver me trair e roubar tudo?”, pensou.

Foi então que esse bandido teve uma ideia. Antes eram três para dividir o tesouro; agora só dois. Poderia ser um só. Por que não? Antes que o outro tentasse lhe passar a perna daria um jeito de ficar com tudo. E seria já.

O ladrão que estava na frente sentiu uma dor na cabeça, antes de perder os sentidos e cair no chão. Seu parceiro o atingiu com uma pedra enorme, que fez sua cabeça sangrar. Mesmo caída no chão, a vítima ainda levou diversa batidas com a pedra, até que seu crânio fosse esmigalhado.

O ladrão sobrevivente pegou o saco e o abriu. Com a luz do celular viu as pedras que estavam lá dentro.

– Estou rico! – gritou, com a voz ecoando no silêncio da floresta.

Saiu caminhando sem rumo, rindo sozinho.

“Amanhã, quando voltar para a cidade vou fazer a festa”, imaginou.

Porém, algo o fez parar. Teve a impressão de ter ouvido passos vindo atrás dele. Parou, respirou fundo e ficou em silêncio. Os passos prosseguiram, ficando cada vez mais próximos. Pensou na hipótese de que poderia ser alguém tentando roubar o tesouro. Com uma mão segurou o saco e com a outra puxou uma faca presa ao cinto. Foi então que começou a correr no meio do mato. Mesmo com a arma, decidiu fugir já que não sabia se havia somente uma pessoa atrás dele ou mais gente.

Foi aí que começaram gritos no meio do mato, que não conseguiu distinguir se eram de seres humanos ou de bichos. Os barulhos vinham de várias direções. Aquilo fez o ladrão sentir medo. Em seguida, ouviu uma voz que lhe chamou a atenção.

– Devolva o tesouro, vagabundo.

“O velho”, identificou.

– Venha pegar! – respondeu.

– Estou indo – disse a voz, que ecoou longe.

– Agora eu vou te matar, velho burro.

“Se for mesmo o velho, vou rasgar ele todo”, pensou o ladrão disposto a não entregar o saco.

– Estou chegando, vagabundo.

O ladrão percebeu que a voz chegava bem perto. Olhou para trás e viu que tinha um arbusto. Ia se esconder ali para pegar o velho de surpresa.

No entanto, surpresa mesmo quem teve foi o ladrão. Ao pular para trás do arbusto sentiu que não havia chão. O saco ficou preso à planta, mas o homem caiu num precipício, a centenas de metros, dando um grito final de desespero.

John Babaovo pegou o saco preso no arbusto. Abriu e olhou para dentro, vendo que as joias permaneciam lá.

– Isso é o que acontece com ladrões imundos que querem roubar o que não pertence a eles. Adeus, vagabundos.

O velho saiu caminhando pelo mato com o saco, sem olhar para trás. Então já sabem. Se forem àquela floresta, não mexam com John Babaovo. Ele tem os poderes da natureza ao seu lado. Os que tentarem lhe fazer mal irão sofrer as consequências.

 

 

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