Liberdade à custa de sangue

Imagens: divulgação

anthropoid

Marcelo Araújo 

Um dos episódios marcantes da 2ª Guerra Mundial foi o atentado, em 1942, ao militar alemão Reinhard Heydrich, um dos arquitetos do Holocausto e chefão das forças nazistas na ocupação da antiga Checoslováquia. O ataque resultou, uma semana depois, na morte do comandante, em um hospital, por conta dos ferimentos sofridos. Trata-se do único caso bem-sucedido de assassinato planejado de um líder nazista poderoso na Segunda Guerra.

A história do ocorrido está no recente filme Anthropoid, produção do Reino Unido, França e República Checa inspirada na operação de mesmo nome. O inglês Sean Ellis assina a direção.

Como destaque no elenco, os atores irlandeses Cillian Murphy e Jamie Dornan. Eles interpretam, respectivamente, Jozef Gabčík e Jan Kubiš, dois agentes enviados pelo governo no exílio para executar Heydrich, em Praga.

cillian

O ator irlandês Cillian Murphy interpreta um agente checo 

Antes de porem o plano em prática, fazem contato com a resistência checoslovaca, cujos líderes, inicialmente, consideram a ideia do atentado loucura. Na visão deles, caso o propósito alcançasse êxito, os alemães poderiam, em represália, matar milhares de cidadãos do país invadido. Apesar das objeções, põem o projeto em prática.

Com a ajuda de duas mulheres, de uma família que os hospeda e dos membros da resistência, Jozef e Jan planejam os detalhes do assassinato, que inclui a distribuição de cápsulas com veneno aos participantes da Anthropoid, a fim de impedir a captura. Todos sabem que se caírem nas mãos dos nazistas enfrentarão impiedosas sessões de tortura para contarem o que sabem e entregarem seus companheiros.

Foto: reprodução 

heydrich

O verdadeiro Reinhard Heydrich 

O dia tão esperado chega. Porém, nem tudo sai como se definiu. Reinhard não morre na hora da emboscada. Segue-se uma perseguição pelas ruas de Praga com o massacre de civis inocentes. Conforme se temia, como retaliação à morte de seu comandante, os nazistas tiraram a vida de aproximadamente 15 mil checos e eslovacos. Para ficarmos em apenas um caso, a vila de Lidice foi destruída pelos opressores, que exterminaram todos os homens com mais de 16 anos de idade. As crianças, por sua vez, pereceram em câmaras de gás e as mulheres seguiram para campos de concentração.

O filme de Sean Ellis consegue transmitir o clima de terror existente na antiga Checoslováquia e nos demais territórios ocupados durante a Segunda Guerra. A banalização da violência, com mortes perpetradas pelos motivos mais fúteis, era característica cruel dos nazistas.

Anthropoid se constrói na tensão. Não há um minuto em que se respire com tranquilidade nas duas horas desta película. Nem mesmo a aparente frieza do herói vivido pelo ótimo Cillian Murphy passa real serenidade. No fundo dos seus olhos, se vê a tristeza e o pavor da tragédia que, inevitavelmente, virá. O combatente sabe que o sonho de liberdade se banhará em sangue para se tornar real.

Obviamente, temos cá as cenas de combates e tiros, mas um bom filme de guerra não pode se restringir a isso. Do contrário, vira uma aventura do Rambo de Stallone, do guerreiro que vai ao combate como se fosse à Disneylândia, sem passar qualquer reflexão ou emoção sobre os horrores reais do front. Anthropoid é magistral.

Pena que mais de 70 anos após o fim da Segunda Guerra não se tenha aprendido tanto sobre os efeitos devastadores desse tipo de conflito. Que a arte nos permita pensar um pouco mais.

 

 

 

 

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