Copacabana nada sadia

copaca

Marcelo Araújo

Em 1982, o cantor e músico Júnior Mendes lançou o disco Copacabana Sadia, cuja faixa título falava dos encantos do bairro mais famoso do Rio de Janeiro (há quem diga que é Ipanema). Visão bem diferente ocupa espaço no livro de quadrinhos Copacabana, do roteirista Sandro Lobo e do ilustrador Odyr, dois gaúchos que já moraram na Cidade Maravilhosa, onde se inspiraram para criar estas páginas. Sem qualquer glamour, a dupla mostra o lado sombrio da região ao invés da visão turística. Trata-se de uma HQ lançada há alguns anos que tive o prazer de descobrir recentemente numa feira de livros.

Junto com Diana, prostituta que protagoniza a história, o leitor mergulha no submundo de Copa, com direito a muito sexo, drogas, armações e violência. Para sobreviver e sustentar a mãe, que mora longe, a prostituta se sujeita a tudo, em meio ao vício nas drogas, exploração sexual e criminalidade.

Cada jornada conduz a moça por um universo no qual habitam profissionais do sexo, traficantes, golpistas, assaltantes, viciados, vagabundos ou simplesmente as tais pessoas “comuns”. Todos buscam prazer e diversão, por hotéis, praias, bares, restaurantes, casas noturnas e prostíbulos. Parecem, de certo modo, perseguir o sonho de uma vida fácil,  regada a riqueza, mas, no final, sempre acabam presos a pesadelos e frustrações.

copaodyr

Tanto as tramas boladas por Lobo quanto os desenhos em preto e branco – com toques noir – de Odyr formam um ambiente no qual a realidade está sempre a nos jogar baldes de água fria. Chama a atenção o fato de quase nunca enxergarmos os olhos dos personagens, exceção aos de Diana, a única que mantém a esperança no caos. As expressões são carregadas pela desilusão da qual um célebre carioca, Paulinho da Viola, nos falou com maestria na música  Dança da Solidão.

Amo o Rio de Janeiro e Copacabana, porém, como em boa parte do Brasil, ali há um desnível entre as apaixonantes e inegáveis belezas naturais e urbanas e a desigualdade social que atormenta parte significativa da população do nosso país, como a bela Diana dos quadrinhos de Odyr e Lobo. Bom que a arte também exista para nos lembrar que junto com as maravilhas coexistem as amarguras neste nosso mundo Jekyll e Hyde.

 

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