O argentino que marcou os quadrinhos brasileiros

Foto: divulgação

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O talentoso desenhista Rodolfo Zalla

Marcelo Araújo

Argentino de nascimento, Rodolfo Zalla deslanchou sua carreira de desenhista e de empresário no Brasil. De forte espírito empreendedor, foi um dos responsáveis pelo desenvolvimento das histórias em quadrinhos em nosso país, à frente de revistas de gêneros como guerra, western e horror.

Zalla nasceu em Buenos Aires, em 1931. Iniciou seu trabalho artístico na nação vizinha, na década de 50, mas se mudou para São Paulo em 1963, onde se radicou. Em seus primeiros tempos em terras brazucas, assinou produções como o herói marítimo Jacaré Mendonça, para o jornal Última Hora; Targo, uma versão amazônica de Tarzan; O Vingador e O Escorpião, plágio do Fantasma, de Lee Falk.  Aliás, Rodolfo entrou no circuito do Escorpião justamente para diminuir as diferenças com o herói de Falk e evitar uma ação judicial da editora americana King Features Syndicate.

escorpiao

Em 1966, Rodolfo Zalla e Eugênio Colonnese fundaram o estúdio D-Arte. A dupla de desenhistas fornecia material para cinco editoras. Uma das encomendas era Mirza, A Mulher Vampiro. Outro projeto concebido foram histórias de guerra para a versão nacional da revista Blazing Combat, da Warren Publishing.

No ano de 69, o D-Arte encerrou as atividades. Na década de 70, Zalla dedicou-se menos às produções de H.Q. , como ilustrar as aventuras do Zorro para a Editora Abril. Concentrou-se mesmo na produção de livros didáticos. É considerado revolucionário neste segmento por ter adaptado a linguagem dos quadrinhos para materiais de estudo, que ficaram mais atraentes para a garotada.

calafrio

Em 1981, Zalla retomou a marca D-Arte, desta vez transformada numa editora, um sonho antigo. No começo, utilizou material inédito criado na década de 1960. Porém, Rodolfo também incentivou novos desenhistas e roteiristas, como Mozart Couto, Sidemar de Castro e Sergio M. Lucas, dando enorme impulso para a indústria das bandas desenhadas no Brasil.

A D-Arte teve como principais publicações Calafrio e Mestres do Terror, estas dedicadas a narrativas sobrenaturais assinadas por autores brasileiros, e o faroeste Johnny Pecos. Particularmente, me chamam a atenção as narrativas da Calafrio, que, entre inspiração em temas clássicos ou novas ideias, traziam enredos e traços bastante originais. A revista também promoveu a interatividade com os leitores, ao publicar relatos baseados em cartas enviadas pelo público.

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A D-Arte resistiu às constantes tempestades da conjuntura brasileira, graças à persistência de seu fundador, enquanto outras naufragavam, como a Ebal. Com garra e criatividade, Rodolfo Zalla enfrentou um mercado instável, sujeito a planos econômicos fracassados e cenários de estagnação. Aguentou bravamente os governos de Figueiredo, Sarney e Collor. Em 1992, o selo, infelizmente, fechou as portas. Dois anos depois, o Plano Real, na gestão de Itamar Franco, pôs fim à hiperinflação que durante tanto tempo castigou os bolsos dos brasileiros. Quem sabe, com a estabilidade conquistada ali, talvez a D-Arte pudesse se consolidar.

Rodolfo Zalla continuou a trabalhar. Em 2010, desenhou para a Ediouro um álbum sobre o médium espírita Chico Xavier. Morreu em junho de 2016, há quase seis meses, aos 85 anos, na cidade de São Paulo. Deixou um grande legado à produção de histórias em quadrinhos no Brasil, em suas obras e nas de outros artistas que incentivou.

 

 

 

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