Cem anos de samba… ou mais

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Donga, autor de Pelo Telefone, conhecido como primeiro samba registrado e gravado

 

Marcelo Araújo

O registro do primeiro samba completa um centenário neste domingo, 27 de novembro. Na mesma data, em 1916, o cantor e compositor Ernesto dos Santos, mas conhecido como Donga, formalizou os direitos autorais da composição Pelo Telefone, que seria gravada em janeiro de 1917.

Há controvérsias em relação à autoria da música e até se de fato foi mesmo o primeiro samba a ter registro e gravação. Dizem que, na verdade, Donga assinou uma composição de autoria coletiva, surgida nas famosas rodas de samba na casa da baiana Tia Ciata, que ele frequentava junto a outros bambas, no Rio de Janeiro. Fora isso, no que diz respeito ao ineditismo, a palavra samba já havia aparecido na designação do estilo e no título de canções gravadas anteriormente.

Polêmicas à parte, este gênero sempre merece lembrança, todos os dias do ano, mas ter datas de referência, como a de Pelo Telefone, e o Dia Nacional do Samba, comemorado no dia 2 de dezembro, certamente ajudam na valorização de uma música maravilhosa, de enorme riqueza não só rítmica, mas de letras, de arranjos e de melodias. Autores como Cartola, Nelson Cavaquinho, Candeia, Heitor dos Prazeres, Ataulpho Alves, Zé Ketti e Paulinho da Viola, entre tantos outros, criaram ricas crônicas do Brasil.

Inicialmente marginalizado e perseguido, o samba saiu dos terreiros e rodas no eixo Rio-Bahia para conquistar o mundo a partir dos anos 40, muito divulgado inicialmente pelos sucessos que Carmen Miranda cantou nos filmes de Hollywood. O samba é um patrimônio cultural fantástico, a trilha sonora da história de resistência do povo negro contra sua opressão em um país que muitas vezes não dá o devido valor às suas raízes.

Apesar de tudo, o samba está aí, nas ruas, nos bares, nas casas noturnas, por todos os lados, com muita poesia. Viva o samba! Pelos séculos que ainda estão por vir!

 

 

 

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Quando o samba vai ao cinema

 

Imagem:reprodução

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Marcelo Araújo

O samba foi personagem de momentos gloriosos do cinema nacional. Do bom humor das chanchadas às dramáticas tramas do realismo do Cinema Novo, o gênero musical teve papel de protagonista, tanto na composição de personagens quanto na ambientação de tramas passadas no País. O maior elo entre os universos do cinema e do samba foi sem dúvida a cantora Carmem Miranda. Ao ir para Hollywood, Carmem ajudou a disseminar a música popular brasileira mundo afora. Muitos foram os sambistas que viram suas carreiras deslancharem depois de tocarem na sala escura. A lista de notáveis inclui Ary Barroso, Vinicius de Moraes, Dorival Caymmi e Zé Keti.

Com a popularização do rádio e a chegada dos filmes sonoros ao cinema, nos anos 30, o samba ganhou de vez as casas e a vida dos brasileiros. Os dois novos meios de comunicação ajudaram a fomentar a indústria da música no país. Com enorme popularidade, os filmes produzidos por estúdios como Cinédia e Atlântida deram visibilidade a cantores, compositores e temas de sambas e de gêneros carnavalescos, como as marchinhas. Artistas, técnicos, músicos e sambistas conseguiram se estabelecer profissionalmente com seus trabalhos artísticos. Nesta época áurea da música, o desfile das escolas de samba foi incluído no calendário de festas oficiais do Distrito Federal.

O cineasta, crítico e professor de cinema Sérgio Moriconi destaca o papel das comédias musicais brasileiras como primeiro espaço ocupado pelo samba no cinema. “Nesses primórdios, esse estilo ainda nem era conhecido como chanchada. Chamavam de filmes carnavalescos. Abriam espaço para as marchinhas, mas também traziam sambas, como os de Ismael Silva e Ataulpho Alves. Mário Reis era figura constante nas telas”, conta.

Moriconi assinala que a sétima arte e as chanchadas tiveram papel fundamental para divulgar o samba nacionalmente. “Até o começo dos anos 60, o cinema foi um importante entretenimento de massas no País. Esse veículo consolidou o samba como parte do éthos brasileiro e como marca forte de nossa representação musical”, afirma.

Após conquistar o território brasileiro, o samba ganhou o mundo e muito disso se deve à projeção de Carmen Miranda no exterior, após chegar à Broadway, em 1939, e, em seguida, a Hollywood, consagrando-se como estrela das telas. “No plano internacional, Carmen Miranda legitimou o samba como expressão da nossa cultura”, observa Moriconi.

A relação que Carmem estabeleceu entre o Brasil e os Estados Unidos foi tão forte que levou o empresário Walt Disney a criar o personagem Zé Carioca, apresentado na animação Você Já Foi a Bahia?.

Visão crítica

Com o advento do Cinema Novo, em meados dos anos 50, o gênero musical ganha visão mais crítica nas telas. Dirigido por Nelson Pereira dos Santos e estrelado por Grande Otelo, Rio Zona Norte aponta uma visão menos romântica do gênero. Conta a história de um sambista pobre ludibriado por espertalhões que roubam as canções do artista e lucram com os direitos autorais. Qualquer semelhança com a realidade não se tratava de mera coincidência.

Sérgio Moriconi aponta as diferenças de abordagem do samba feitas pelas chanchadas e pelo Cinema Novo. “As chanchadas ressaltavam o fato de o brasileiro ser o povo da alegria, formado por indivíduos que transformam tudo em Carnaval, com as questões sociais diluídas”, comenta. “De viés ideológico, o Cinema Novo posicionou o samba como elemento popular forte e o contrapunha à cultura burguesa”, opina Moriconi.

Ainda em relação a samba e cinema, Sérgio recorda a importância de uma produção francesa, italiana e brasileira para os laços entre as duas expressões: Orfeu Negro ou Orfeu do Carnaval, de 1959, dirigido por Marcel Camus. A película trouxe o mito grego de Orfeu para o Carnaval do Rio. Estrelado por atores negros e com trilha sonora de Tom Jobim e Luiz Bonfá, Orfeu, segundo Moriconi, ajudou a sedimentar a imagem do samba fora do País e ainda a lançar a bossa nova, ao conquistar Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira e a Palma de Ouro em Cannes.

O professor valoriza ainda a produção de documentários sobre o samba. “Esse gênero forma um arquivo da identidade brasileira, com uma noção clara do que se construiu”, elogia.

O que assistir

  • Alô, Alô, Carnaval, de Adhemar Gonzaga (Brasil, 1936, 75 minutos). Único filme brasileiro com a participação de Carmen Miranda que sobreviveu ao tempo. Além da Pequena Notável, traz performances de artistas como Mário Reis, Francisco Alves e Dircinha Batista.
  • Rio Zona Norte, de Nelson Pereira dos Santos (Brasil, 1957, 90 minutos). Drama sobre um humilde sambista carioca chamado Espírito da Luz, vivido por Grande Otelo. No enredo, as dificuldades de figuras anônimas que acabam enganadas por aproveitadores que lucram com os direitos autorais. Zé Keti faz um papel no filme e ainda assina parte da trilha sonora.
  • Orfeu Negro ou Orfeu do Carnaval, de Marcel Camus (Brasil, França e Itália, 1959, 100 minutos). O mito grego de Orfeu e Eurídice ganha uma releitura no Rio de Janeiro, durante o Carnaval, com atores negros. A inspiração partiu da peça de teatro Orfeu da Conceição, de Vinícius de Moraes. A trilha sonora traz muito samba tocado pela rua e música de Tom Jobim e Luiz Bonfá. Agostinho dos Santos interpreta o tema de Orfeu, Manhã de Carnaval. Em 1960, Orfeu Negro conquistou o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira e a Palma de Ouro em Cannes no ano anterior. Em 1999, Cacá Diegues refilmou a história com Toni Garrido, então vocalista do grupo de reggae Cidade Negra, no papel de Orfeu, antes personificado por Breno Mello.
  • Cinco vezes favela, de Marcos Farias, Miguel Borges, Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade e Leon Hirsman (Brasil, 1962, 92 minutos). Uma das obras mais significativas do Cinema Novo, com cinco histórias. O terceiro episódio, Escola de Samba, Alegria de Viver, de Cacá Diegues, fala de um jovem sambista que assume a direção de uma escola de samba pouco antes do Carnaval, enfrentando uma crise financeira na agremiação. O Quarto episódio, Couro de Gato, de Joaquim Pedro de Andrade, mostra as peripécias de um grupo de meninos que desce o morro para roubar gatos com o objetivo de venderem os animais para fabricantes de tamborins.
  • Heitor dos Prazeres, de Antônio Carlos da Fontoura (Brasil, 1965, 14 minutos). O protagonista deste documentário é o sambista e artista plástico Heitor dos Prazeres. Em um dos momentos do filme, ele comenta o fato de não gostar de comercializar sua arte.
  • Carmen Miranda, de Jorge Ideli (Brasil, 1969, 18 minutos). Documentário que destaca a mais famosa cantora brasileira de todos os tempos. O filme reúne cenas da vida particular e dos musicais de sucesso.
  • Nelson Cavaquinho, de Leon Hirszman (Brasil, 1969, 14 minutos). Este filme destaca a relação do sambista Nelson Cavaquinho com o ambiente em que vivia, o morro da Mangueira. O compositor e cantor dá depoimentos sobre sua vida e sua produção musical.
  • Saravah, de Pierre Barouh (Brasil/França, 1969, 91 minutos). Este documentário traz imagens históricas, como um dos raros registros de João da Baiana e uma roda de samba em Niterói, com a participação de Paulinho da Viola e Maria Bethânia.
  • Conversa de Botequim, de Luiz Carlos Lacerda (Brasil, 1972, 10 minutos). Documentário sobre João da Baiana, com as participações de Donga e Pixinguinha.
  • Álbum de Música, de Sérgio Sanz (Brasil, 1974, 10 minutos). Curta-metragem que destaca aparições de artistas como Almirante, Cartola, Nara Leão e Gilberto Gil.
  • Natal da Portela, de Paulo César Saraceni (Brasil, 1988, 100 minutos). Ficção que fala da vida de Natal da Portela, que perdeu um braço na infância e se tornou famoso bicheiro e patrocinador da Portela.
  • O Mandarim, de Júlio Bressane (Brasil, 1995, 90 minutos). Música e imagens revivem a trajetória do cantor Mário Reis, interpretado pelo ator Fernando Eiras, e de outros artistas. No elenco, Gilberto Gil (Sinhô), Gal Costa (Carmen Miranda), Raphael Rabello (Villa-Lobos), Chico Buarque (Noel Rosa), Edu Lobo (Tom Jobim) e Caetano Veloso (como ele mesmo).
  • Nelson Sargento, de Estevão Ciavatta (Brasil, 1997, 21 minutos). Relato biográfico do cantor, compositor, ator e artista plástico durante uma visita ao morro da Mangueira.
  • Um Certo Dorival Caymmi, de Aluísio Didier (Brasil, 1999, 70 minutos). Documentário sobre a vida e obra do compositor baiano, da sua vinda para o Rio de Janeiro ao reconhecimento como um dos mais importantes autores da música brasileira.
  • Paulinho da Viola – Meu Tempo é Hoje, de Izabel Jaguaribe (Brasil, 2002, 83 minutos). Documentário sobre Paulinho da Viola que dá um panorama na obra e na trajetória do artista carioca. No filme, Paulinho fala de temas como suas influências musicais e nostalgia.
  • Batuque na Cozinha, de Anna Azevedo (Brasil, 2004, 19 minutos). Documentário sobre Tia Doca, Tia Eunice e Tia Surica, pastoras da Velha Guarda da Portela, organizadoras de famosas rodas de fundo de quintal.
  • Chico Buarque – Estação Derradeira, de Roberto de Oliveira (Brasil, 2005, 79 minutos).Retrospectiva da obra do cantor e compositor carioca que destaca seu lado sambista. Além de Chico, participam do filme nomes como a Velha Guarda da Mangueira, Leci Brandão, João Nogueira, Beth Carvalho, Nelson Sargento e Alcione.

Entre os vivos e os mortos

Foto: divulgação

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Jim Morrison? Não, Jim Jacobs!

 

Marcelo Araújo

O líder religioso americano Jim Jones entrou para a história por incentivar o suicídio de mais de 900 pessoas, que faziam parte do culto Templo dos Povos, em Jonestown, na Guiana, no ano de 1978. De alguma forma, essa tragédia inspira The Veil (O Véu), filme de terror dirigido pelo californiano Phil Joanou, o mesmo que em 88 realizou Rattle and Hum, documentário com a banda irlandesa U2.

Nesta obra de ficção, Jim Jones dá lugar a Jim Jacobs, numa ótima interpretação de Thomas Jane. Na verdade, o personagem está mais para uma versão diabólica de Jim Morrison do que para o Reverendo Jones. Trata-se de um guru com poderes sobrenaturais que forma a seita Heaven’s Veil (Véu do Céu) em uma velha propriedade rural. Jacobs tenta romper elos entre a vida e a morte, indo e voltando do além. Misteriosamente, acaba perecendo junto com seus seguidores.  Apenas uma criança sobrevive, encontrada pela polícia.

Vinte e cinco anos mais tarde, Sarah, vivida por Lily Rabe, do seriado American Horror Story, retorna ao local fatídico, acompanhada de uma equipe de documentaristas liderados por Maggie Price (Jessica Alba). Maggie e seu irmão, que está na trupe, também tiveram suas vidas dilaceradas pelo incidente de horror. Seu pai, chefe dos agentes que encontraram os cadáveres, suicidou-se meses após o fato macabro.

Após se instalar nas antigas terras da Heaven’s Veil, o grupo encontra em uma casa fitas de vídeo com as experiências espirituais de Jim Jacobs. Enquanto vão assistindo às antigas imagens e descobrindo os segredos por trás dos supostos suicídios, os jovens terminam se deparando com ocorrências sobrenaturais, que trazem um perigo além da compreensão.

Phil Joanou fez uma obra-prima ao combinar a atmosfera de misticismo de cultos como o de Jim Jones ao terror. Muito inteligente relacionar o horror real, do fundamentalismo religioso, capaz de levar os homens a cometerem qualquer ato, a elementos sobrenaturais fantasmagóricos. E o que dizer da performance de Thomas Jane como o líder Jim Jacobs, com trejeitos e oratória claramente inspirados no célebre líder dos Doors? Fantástico.

Com direito a ótimos sustos, The Veil conduz o espectador a uma viagem tortuosa ao universo do medo, felizmente, com volta.

 

 

Do mestre sempre lembraremos

Foto: divulgação

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Marcelo Araújo

Pela relação que tenho há muitos anos com a música do cantor, compositor e escritor canadense Leonard Cohen, não poderia deixar de fazer algum registro a respeito da sua morte, cujas causas ainda permanecem desconhecidas. O artista faleceu na sua casa, em Los Angeles, na última segunda-feira, 7 de novembro. Porém, apenas no dia 10, quinta-feira, o triste fato foi divulgado. Partiu um dos nomes mais importantes da cultura ocidental contemporânea, que nos fará enorme falta.

Foi na noite de quinta-feira (10 de novembro), quase madrugada de sexta, que soube desta grande perda. Conversava com a minha esposa, Michelle, quando meu irmão, Claudio, telefonou para avisar o ocorrido. Apesar dos 82 anos e de recentes problemas de saúde, Leonard Cohen ainda produzia. Lançou seu último disco, o décimo-quarto de estúdio, You Want It Darker, dias antes de seu óbito. A atmosfera sombria deste título (Você quer isso mais escuro, em português) soa como um prenúncio.

A música de Cohen entrou na minha vida no começo da casa dos 20 anos. Em meio a muito rock’n’roll, o disco dele que ouvi primeiro foi I’m Your Man, de 1988, do qual faz parte First We Take Manhattan. Era uma música de contraste, com uma batida eletrônica que poderia pertencer a qualquer grupo technopop com uns backing vocals a la Madonna, mas uma voz sombria, grave, cantando uma letra extremamente sofisticada. Aquilo me causou impacto. Depois, ouvi este LP melhor e descobri outras pérolas, como I Can’t Forget, uma canção nostálgica e de amor.

Lembro de ter comprado Songs of Leonard Cohen, o primeiro elepê dele, de 1967, em um sebo. As audições desta obra-prima aprofundaram minha relação com a obra de Leonard. Este é certamente o meu favorito entre seus álbuns, um folk com psicodelia, com cada música trazendo uma história tocante, com personagens como a célebre Suzanne, o guru de Master Song, a garota de So Long, Marianne, ou o médico e o esquimó de One of Us Cannot Be Wrong. Quantas manhãs, tardes e noites passadas escutando essas pérolas, viajando na minha mente para outras épocas e mundos.

Vários outros discos de Cohen fizeram minha cabeça, como Songs of Love and Hate, de 1969, um folk melancólico, ou  Death of a Ladie’s Man, de 77, produzido por Phil Spector e com um profundo mergulho no soul. Este disco chega a lembrar a sonoridade do material que Spector produziu para John Lennon na primeira metade dos anos 70.

Perdemos outros grandes artistas recentemente, como David Bowie. Cada vez que um cara desses morre vem um sentimento de desolação, em um mundo estranho, brutal. Que a arte de Leonard Cohen nos ilumine de alguma forma. A dor é imensa, mestre, mas a sua voz ainda nos consola!