Vamos falar da diversidade

Imagem: divulgação

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Neste sábado, 29 de outubro, participo do projeto Transversalidades, na Cidade Estrutural, no Distrito Federal. Com a temática Diversidade Religiosa, haverá exibição do curta Do Meu Lado: As vidas de duas vizinhas, de Tarcísio Lara Puiati.

O evento é organizado pela cineclubista Fernanda Carvalho da Silva e acontece a partir de 10h30 na Associação São Francisco de Assis (Quadra 12 Conjunto “D” lote 45), com entrada franca. Após a sessão, falaremos do filme e de literatura.

Adoro esse tipo de iniciativa porque me dá a oportunidade de conversar com o público, ainda mais em se tratando de um assunto desta importância, nos tempos em que precisamos combater as diversas formas de intolerância.

Além de falar do filme e de seu enredo, poderei conversar com o público sobre literatura e a respeito do meu trabalho. Lembro que meu quarto livro, o infantil A Testinha de Gabá, trata do papel da diversidade e da importância de se combater o preconceito, aqui personificado pelo bullying nas escolas.

Até lá.

Braulio Tavares recria monstros do folclore

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Marcelo Araújo

Poeta, cronista, contista, romancista, ensaísta, dramaturgo, letrista e pesquisador, o paraibano Braulio Tavares tem longa e estreita relação com a literatura fantástica. Como muitos adeptos deste gênero, recebeu influências de autores célebres mas bebeu em outra fonte riquíssima: as histórias da tradição oral que povoam o folclore brasileiro de norte a sul. Em Sete Monstros Brasileiros, seu mais recente trabalho de ficção, recria espectros que há séculos assombram a nossa imaginação.

Como o próprio Braulio Tavares deixa claro na introdução, o livro não resgata relatos populares, conforme fizeram de forma admirável Câmara Cascudo em tantas obras e Gilberto Freyre especificamente em Assombrações do Recife Antigo. Ao invés disso, lemos sete contos livremente inspirados na tradição. Alguns inclusive se passam nos tempos atuais, já com a presença de internet, blogs, celulares e outros elementos contemporâneos.

Todas as narrativas carregam no suspense, despertando no leitor enorme curiosidade . A Sétima Filha retoma uma das lendas mais populares do folclore mundial, a do lobisomem. Já Papa-Figo é dedicado ao mito de um homem doente que para aliviar as dores provocadas por sua enfermidade se alimenta do fígado de crianças. Curiosamente, sem ainda conhecer a história de Tavares, publiquei em 2015, no fanzine Lobotomia, conto homônimo também inspirado nesse ente canibal. Chamou-me bastante atenção ainda a tenebrosa A Expedição Montserrat, sobre um grupo que perece em circunstâncias misteriosas em uma mata da região Centro-Oeste.

Não podemos deixar de falar das ilustrações de Sete Monstros Brasileiros, criadas pelo paulistano Fernando Issamo, que já atuou no mercado de games. As imagens belas e macabras aparecem sempre ao fim de cada conto para nos lançar mais uma dose de medo.

Sete Monstros Brasileiros é aquele tipo de livro que quando acaba te deixa com o gostinho de “quero mais”. Os enredos continuam a martelar na memória. Não há dádiva melhor para um grande escritor do que mexer com as ideias do leitor em um espaço além das páginas escritas.

 

50 anos da morte de Heitor dos Prazeres

Foto: arquivo familiar

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Replico aqui matéria que escrevi recentemente para o site do Ministério da Cultura sobre o cinquentenário da morte do pintor e sambista Heitor dos Prazeres

Marcelo Araújo

O sambista e pintor carioca Heitor dos Prazeres foi um dos servidores ilustres do Ministério da Educação e Cultura (MEC), entre os anos 30 e 50. Foi o poeta Carlos Drummond de Andrade, outro ex-funcionário célebre da pasta, quem trouxe o artista popular para o órgão público. No Palácio Gustavo Capanema, sede da Representação Regional do Ministério da Cultura (MinC), no Rio, há uma placa mencionando o fato de Heitor ter trabalhado no prédio. Nesta terça-feira (4), completam-se 50 anos da morte do cantor, compositor e instrumentista que tantas canções imortalizou. Vale lembrar que, em 2016, se comemora o Centenário do Samba, em referência à histórica gravação Pelo Telefone, de Donga, a primeira do gênero, realizada em 1916.

Heitor nasceu no dia 23 de setembro de 1898, na cidade do Rio de Janeiro, na rua Presidente Barroso, na Praça Onze. Seu pai, Eduardo Alexandre dos Prazeres, trabalhava como marceneiro e clarinetista da Guarda Nacional. Já a mãe, Celestina Gonçalves Martins, era costureira. Eduardo morreu quando o filho tinha apenas sete anos, mas não sem antes transmitir a Heitor o ofício da marcenaria e a paixão pela música. Mais tarde, enquanto trabalhava em profissões como marceneiro, engraxate, jornaleiro e lustrador de móveis, o garoto entrava pela porta da frente no mundo da música.

Tanto nas canções que compôs quanto nos quadros que pintou, Heitor dos Prazeres narrou com maestria a vida da gente do Rio de Janeiro. “A alegria e o sofrimento deste povo é que me obrigam a trabalhar”, disse o sambista, em referência ao seu processo criativo, no belíssimo documentário de 1965 que leva seu nome, dirigido por Antônio Carlos da Fontoura.

De cavaquinho ou clarinete na mão, participava de rodas em locais como a casa de Tia Ciata, considerada um dos berços do samba, onde convivia com mestres como João da Baiana, Donga, Pixinguinha e Caninha. Seu maior sucesso foi Pierrô Apaixonado, composto em parceria com Noel Rosa. Nos anos 20, ajudou a fundar a escola de samba Portela. Justamente com uma composição de Heitor dos Prazeres, Não Adianta Chorar, a Azul e Branco conquistou, em 1929, um concurso entre as agremiações.

As mais de 200 composições do autor carioca trataram de diversos temas, como desilusões amorosas, a vida agitada do carioca e a religiosidade dos terreiros, presente em sua vida desde os primórdios e uma influência decisiva. Nesse leque, estão Vou te Abandonar, Carioca Boêmio, Nada de Rock Rock (manifesto contra a chegada do rock’n’roll ao Brasil, na segunda metade dos anos 50), Quem é Filho de Umbanda, Canção do Jornaleiro, Mamãe Oxum, Vem de Aruanda e Tá Rezando.

Em 1931, o artista se casou com Glória, com quem teve três filhas. Infelizmente, o relacionamento durou pouco e terminou com a morte da esposa, em 1936. Para lutar contra a tristeza, descobriu a pintura e, um ano após o acontecimento, já começou a expor seu trabalho, que ganhou repercussão no país e até internacional. Autodidata, retratou em seus quadros a vida dos moradores das favelas, como brincadeiras de criança, festas juninas, jogos de baralho e rodas de samba, sempre com a indefectível marca dos personagens olhando para o alto.

Paradoxalmente, apesar do sucesso na pintura, Heitor dos Prazeres desabafava que não apreciava produzir em série, em caráter comercial. Admitiu isso no documentário de Antônio Carlos da Fontoura, ao falar que, muitas vezes, o artista, por necessidade, vivia acorrentado e não fazia o que queria.

Insatisfações pessoais à parte, seu talento o imortalizou, sendo reverenciado por personalidades como o ex-presidente Juscelino Kubitschek e os escritores Stanislaw Ponte Preta e Carlos Drummond de Andrade. O autor de Itabira lhe dedicou o poema A Heitor dos Prazeres Artista. Em uma das estrofes dessa emocionante homenagem, Drummond define Heitor: “Por tua pintura e música, passa um fluido de poesia. Poesia das coisas simples, unidas em melodia”.

 

Quarteto fantástico homenageia Einhorn

 

Foto: Marcelo Araújo grossi

Da esquerda para a direita, Gabriel Grossi, Pablo Fagundes, Félix Jr. e Marcus Moraes

Marcelo Araújo

Dois virtuoses do sopro e dois das cordas prestaram homenagem à altura da obra de Maurício Einhorn, o mais importante gaitista da música brasileira. Aos 84 anos, o lendário instrumentista está internado, em um estado de saúde delicado, no Rio de Janeiro. À distância, no último sábado (1º de outubro), no Teatro Sesc Silvio Barbato, na capital do país, os brasilienses Gabriel Grossi e Pablo Fagunes (gaitas) e Marcus Moraes e Félix Jr. (violões de 7 cordas) mandaram boas vibrações ao mestre, dentro do projeto Clube da Bossa Nova, que acontece sempre nas manhãs de sábado.

Na apresentação de abertura, Pablo Fagundes e Marcus Moraes mostraram um repertório eclético, indo do erudito ao blues. Fagundes arrancou bravos da plateia ao unir Tico-Tico no Fubá e, principalmente, O Voo do Besouro, do compositor russo Rimsky-Korsakov. De tirar o fôlego!

Seguramente, um dos maiores responsáveis por recolocar a gaita com toda força no mapa da música brasileira, Gabriel Grossi, radicado há 15 anos no Rio de Janeiro, foi acompanhado pelo exímio Félix Jr. Grossi confere protagonismo ao instrumento com harmonizações, melodias e improviso marcantes. Melhor ainda com a presença do violão de Félix, em uma pegada brasileiríssima banhada no choro e no samba. Recentemente, o duo lançou o CD Nascente, no qual celebram uma parceria que vem desde a década de 2000.

Um dos destaques do show aconteceu quando Fagundes e Grossi tocaram Insensatez, de Vinícius de Moraes e Antônio Carlos Jobim, com as duas gaitas realizaram um diálogo dividindo frases e solos na célebre canção da bossa nova. Outro momento marcante foi quando os quatro músicos se juntaram para um medley que incluiu Canto de Ossanha e Berimbau, duas joias do repertório de Vinícius de Moraes e Baden Powell, e para Estamos aí, do homenageado Maurício Einhorn e Durval Ferreira. Os improvisos de cada membro do quarteto levaram a plateia ao delírio absoluto. Aplaudido de pé, o quarteto deixou o palco com a felicidade estampada no rosto. Maurício Einhorn ia gostar de ver.

 

Rob Zombie deixa nova marca no terror

Imagens: divulgação

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Marcelo Araújo

Dividindo a atividade de diretor com a de cantor de rock, Rob Zombie, ex-vocalista da banda White Zombie, tornou-se um dos mais importantes inovadores do cinema de terror. Ele volta a deixar sua marca no gênero com 31, filme em que, a exemplo de anteriores, como A Casa dos Mil Cadáveres, Lords of Salem e a série Halloween, mergulha o horror na cultura pop da década de 70.

Desta vez, uma das principais referências para Zombie parece ser Massacre da Serra Elétrica, de 1974, dirigido por Tobe Hooper, com pitadas de Quentin Tarantino.

Funcionários de um parque de diversões viajando por uma estrada deserta acabam capturados por psicopatas na véspera do Dia das Bruxas. Entre os desafortunados, Charly, interpretada por Sheri Moon Zombie, esposa do cineasta e estrela de suas outras películas.

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Levados para um lugar sombrio, os prisioneiros se veem obrigados a enfrentar palhaços assassinos. Se conseguirem sobreviver nas próximas 12 horas, estarão livres, porém trata-se de uma tarefa praticamente impossível. Mais curioso ainda o fato de toda a carnificina ser acompanhada por um grupo de idosos sádicos trajando um figurino pré-Revolução Francesa.

A trupe tem como líder o inglês Malcom McDowell, que imortalizou tipos insanos como Alex, de A Laranja Mecânica, e Calígula. Tal qual nessas obras que o consagraram, McDowell encarna uma figura mista de frieza e insanidade. Nessa mesma praia, outro ator que brilha é Richard Brake, como o psicótico Doom-Head, num personagem pavoroso que parece uma mistura de Marilyn Manson com o Coringa de Heath Ledger.

A partir desses ingredientes, o sangue espirra pra todo lado, com lutas bárbaras e corpos dilacerados. Mas 31 não se mantém só na carnificina e tem como ponto de apoio a tensão psicológica na batalha pela sobrevivência.E não para por aí. Esteticamente, Rob Zombie utiliza recursos interessantes que se referem ao cinema dos anos 70, como a fotografia, os cenários de road movie, o congelamento de imagens e o estilo de abertura apresentando os principais personagens.

A trilha sonora também remete à época, com rock’n’roll e black music. Rob se vale da música para enriquecer cenas, seja com leveza ou dramaticidade. A cena final, com Dream On, do Aerosmith, ajuda a causa um efeito forte, como o espectador irá constatar.

O filme 31 ainda não tem estreia prevista no Brasil. Que venha para cá porque é uma das melhores produções recentes de terror. Quem já conhece Rob Zombie não vai se decepcionar. E quem nunca viu algo dele terá uma boa oportunidade para começar.