Uma conversa com Lee Ranaldo

Foto: Michelle Souza img-20160910-wa0077

Lee Ranaldo e o responsável por este blog no Teatro Dulcina, em Brasília

 

Marcelo Araújo

Guitarrista, compositor, produtor e cantor, o americano Lee Ranaldo é um dos músicos mais importantes da história do rock. Durante 30 anos, ao lado do também guitarrista Thurston Moore e da baixista Kim Gordon, fez parte do Sonic Youth, banda revolucionária criada na cidade de New York, em 1981. O grupo, ao qual depois se integrou o baterista Steve Shelley, criou uma sonoridade absolutamente diferenciada, desenvolvendo canções que combinavam melodias, riffs e letras muitas vezes oníricas a ruídos e afinações diferenciadas alçados à estética artística avant-garde.

Com influências tão distintas quanto o punk, o rock de garagem dos anos 60, o pop, a psicodelia, a música erudita contemporânea e o free jazz, o Sonic Youth inicialmente foi vinculado ao movimento No Wave (Nenhuma Onda, numa reação anticomercial à new wave) acabou classificado como Noise (barulho, do inglês). Rótulos, no entanto, talvez não sejam suficientes para abranger a muralha musical do grupo nova-iorquino, que se separou em 2011. O instrumentista aproveitou o fim da banda para dar continuidade a uma carreira solo iniciada em 1987 e que já rendeu 12 discos. Lee, vale lembrar, também fez parte da orquestra de guitarras de Glenn Branca, antes de ingressar no Sonic.

Foi a sua carreira solo que o trouxe mais uma vez ao Brasil. Ele abriu a turnê na última sexta-feira (9), com um show em Brasília. No sábado (10) e domingo (11), apresentou-se em São Paulo. Nesta segunda (12), passa por Curitiba. Na terça (14), vai ao Rio de Janeiro. A digressão acaba em Salvador, na próxima quinta (15). Mais informações no site http://www.leeranaldo.com/. No palco, com seus violões, Lee Ranaldo realiza uma performance que vai do etéreo ao barulhento com uma forte influência do folk. Ora sereno, ora frenético e experimental, empunhando um arco de violino ou elevando seu instrumento ao ar, em cerca de uma hora e meia de concerto, o cantor e guitarrista inflamou a plateia.

Fora do palco, aos 60 anos, o artista também é maravilhoso, simples, extremamente simpático com os fãs. Com a maior paciência, posou para fotos, autografou discos e bateu papo com a galera. Claro, que eu, apaixonado incondicional pelo Sonic Youth e pelo trabalho de Ranaldo, não fiquei de fora. Nem eu e nem minha esposa Michelle e meu amigo Marlos Brayner. Compramos CDs e aparecemos ao lado desse cara incrível. Algumas das imagens estão no meu Instagram (@marcelomca). Sonic Youth para mim é icônico como  outros grupos que ouço desde moleque, como Black Sabbath, Led Zeppelin, Beatles, Ramones, MC5, Stooges, Velvet Underground, Pink Floyd e David Bowie.

Na sua passagem pela capital do país, onde tocou no Teatro Dulcina, em um evento promovido pela banda Móveis Coloniais de Acaju, Ranaldo fez coisas bem legais. Deu duas voltas de bicicleta pelo Parque da Cidade, totalizando 21 quilômetros, tomou água de coco, comeu carne de sol e se esbaldou na pimenta e manteiga de garrafa no restaurante de comida nordestina Xique-Xique junto com o músico Mauro Rocha, subiu no alto da Torre de TV para uma deslumbrante vista do Plano Piloto e conheceu monumentos do arquiteto Oscar Niemeyer como a Igrejinha da 307/308 Sul. No seu perfil do Instagram, escreveu sobre a Catedral de Brasília: “Space ship on concrete desert”, traduzindo: “Nave espacial no deserto de concreto”.

Foto: Marlos Brayner

res_1473537987841

Lee e a jornalista Michelle Souza

Em entrevista com o guitarrista, falamos dessa passagem pela Cidade Avião, do que Ranaldo acha do Brasil, de seu interesse por música brasileira e por cultura. Ele se declarou fã de artistas como Caetano Veloso e revelou que acaba de descobrir a poesia do português Fernando Pessoa. Também comentou a possibilidade de retorno do Sonic Youth. Lee ainda adiantou informações sobre seu novo disco, Electric Trim, que deve sair no início de 2017 com uma sonoridade que ele mesmo considera diferente, com elementos acústicos, elétricos e eletrônicos.

Confira a conversa abaixo.

 

Quais suas impressões sobre Brasília?

Eu curti muito. Esperei um longo tempo para ver Brasília e não me desapontei. É uma cidade ao mesmo tempo muito legal e muito estranha. Não é feita para andar, isso é certo, mas parece realmente organizada para os automóveis. As longas distâncias e todas aquelas curvas fazem a cidade bem distinta. Eu vi um monte de prédios do Niemeyer e isso foi realmente bacana. A vista da Torre de TV (vejam o filme que fiz no meu Instagram – @leeranaldo) é fantástica. Eu ainda dei uma pedalada de 21 quilômetros no Parque da Cidade, o que também foi incrível. Conheci muitas pessoas legais em Brasília e visitei alguns lugares. Espero voltar um dia para passar mais tempo.

O que achou do público da capital do país?

O público foi ótimo. Sempre tem sido assim no Brasil, tanto para mim quanto para o Sonic Youth. É um prazer tocar aqui e as plateias são entusiasmadas. Realmente, uma boa atmosfera.

Quais seus sentimentos pelo Brasil?

Eu amo o Brasil de verdade. À medida que tive a chance de vir mais e ver mais do país passei a achá-lo mais interessante. O Brasil parece uma grande mistura de coisas que podem parecer um pouco estranhas para nós do Norte. Me aprofundo na música e na cultura a cada visita. E adoro as cidades que tenho conhecido. Elas parecem cheias de vida com suas pessoas e atividades. Sei que ocorreram problemas políticos ultimamente (!) mas isso não parece ter passado por cima do espírito das pessoas que tenho conhecido.

Você conhece e gosta de alguns artistas do nosso país, como o Sepultura? Em 2011, você e os outros membros do Sonic Youth conheceram Caetano Veloso. Você gosta da música dele?

Sim. Definitivamente amo a música do Caetano e já encontrei com ele algumas vezes, o que é uma grande honra. Eu conheço muito artistas populares brasileiros como Gal Costa, Joyce, Gilberto Gil e Os Mutantes. Recentemente, descobri os Secos e Molhados. Gosto ainda de outros tipos de música, como a de Villa-Lobos. Eu sei um pouco sobre o Sepultura, mas não posso dizer que conheça a sua música muito bem. Tenho escutado algo da cena indie e noise do Brasil. Tem muita música legal sendo feita aqui!

Existe alguma chance de um dia o Sonic Youth se reunir novamente?

Nenhum de nós do Sonic Youth está pensando em uma reunião. Nós estamos todos felizes e ocupados com outras coisas. Não vou dizer “nunca” mas eu não apostaria muito nesse retorno. Tivemos 30 anos de trabalho juntos e ainda há arquivos com material inédito que podem ser lançados no futuro.

Que projetos você reserva para o futuro?

 Eu acabei de terminar um novo álbum e estou muito excitado a respeito disso. Chama-se Electric Trim. Deve ser lançado no começo de 2017. Muitas das canções que tenho tocado nos concertos aqui no Brasil são deste disco. Trata-se de uma colaboração com um produtor de Barcelona chamado Raul Frenandez (Refree). O CD é repleto de baterias eletrôncias, samples e muitos músicos, incluindo a minha banda, The Dust (Steve Shelley, Alan Licht e Tim Luntzel), Nels Cline, Sharon Van Etten e Kid Millions. É um disco que soa um pouco diferente para mim e mal posso esperar para que todo mundo ouça.

 Quais suas principais influências na música e na cultura em geral?

Ah! São muitas para falar aqui. Eu sou um amante da arte e de filmes, música e literatura de todos os tipos – dos contemporâneos aos antigos. Recentemente, comecei a ler Fernando Pessoa.

Foto: Marlos Brayner

img-20160910-wa0076

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s