Burt Gonzaga

Um ator ítalo-americano que espera a chance da sua vida

Ilustração e texto: Marcelo Araújo. Todos os direitos reservados

Burt Gonzaga

Burt apagou mais um cigarro no cinzeiro. Já se acumulavam mais de vinte guimbas desde as dez. Eram duas da manhã e estava na metade da segunda garrafa de vermute. No toca-discos, o lamento de Billie Holiday com Fine and Mellow.

Burt Gonzaga não conseguia pensar em mais nada a não ser no teste para o filme épico que faria na semana que vem. Talvez esta fosse sua última grande oportunidade.

Um amigo cenógrafo foi quem o indicou para a seleção.

“Eles têm um papel de centurião que acho que cairá bem em você”, disse o camarada.

Centurião, legionário, apóstolo, profeta. Não importava que papel descolasse contanto que descolasse um papel.

Nascido no Brooklyn, de família italiana, Burt Gonzaga desde cedo apostou todas as fichas na carreira de ator. Primeiro, nas peças na escola. Depois, numa pequena companhia de teatro de New York, até que decidiu que cinema era seu forte. “Serei o novo Victor Mature, sem aquele físico incrível, claro”, planejou.

Porém, aos trinta e tantos, tudo o que conseguira foram trabalhos de figurante. Sim, teve também um filme policial inspirado em Chandler no qual obteve um papel de gangster com duas falas curtas. Mas tudo ainda era inexpressivo. Quando viraria Mature era a questão que não saía de sua cabeça.

Quem o visse ali sentado certamente riria da pretensão e das características físicas que não lembravam mesmo o herói bíblico de Sansão e Dalila ou o Tenente Candella de Uma Vida Marcada, ambos os tipos vividos por Mature.

Talvez Burt pudesse ser um vilão do cine noir, com sua cabeleira loira encaracolada, seu bigodinho e a bocarra, vestindo, naquele momento, uma blusa cacharel rosa e uma calça de brim azul, com sapatos de camurça marrom. Ou  quem sabe uma afetada figura de imperador romano, trocando-se o figurino, evidentemente.

Burt Gonzaga deu uma generosa golada no vermute. O álcool tinha esse dom de acalmá-lo, de dissipar suas angústias, de afastar a ansiedade.

Será? Nem sempre.

Já tinha suportado demais. A noite passava e ele não iria conseguir fechar os olhos. Acendeu mais um Lucky Strike, que em pouco mais de um minuto virou cinzas.

Pensou naquela linda menina baixinha, de olhos claros, de vestido preto, que passeava toda tarde pelo boulevard. Precisava topar com ela qualquer hora dessas, de preferência quando já tivesse um papel significativo. Assim, iria impressionar a pequena.

“Vai dar tudo certo! Esse papel de centurião será meu! Basta acreditar!”.

Então, após uma longa tensão, sacou do bolso da calça um plástico com um pó marrom. Pôs na colher, que esquentou com o isqueiro, jogando em seguida tudo na seringa. Levantou a manga da cacharel e se aplicou.

“Vai dar tudo certo desta vez”, foi o que disse, antes de fechar os olhos em êxtase

 

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Um pensamento sobre “Burt Gonzaga

  1. Marcelo,

    Grande! Grande!! Grande Conto!!!

    Adorei o vermute, as tantas guimbas, o toca-discos, o Brooklin, Billie Holiday.
    Texto rápido, verical.
    Coclusão súbita que pega o leitor de calça arriada nas pernas: FANTÁSTICO!
    Chamou-me muito a atenção como você conduziu um personagem existencial sem deixar nenhuma pista para o leitor; no final do texto, a “porrada”, melhor poderia ser dito: a “picada”!

    Para seguir o “cenário” do texto, eu digo: CONGRATULATIONS!!

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