Dentes noturnos

Ilustração: Vampire Teeth, by Marcelo Araújo

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Minha mulher dorme tranquilamente ao meu lado, na cama. Por isso, gelo quando uma mão que não é a dela toca meu ombro.

Uma moça extremamente pálida aparece por cima de mim. Ela tem cabelos escuros e curtos, com uma franja estilo Louise Brooks, com olhos grandes e azuis. Nada fala, mas sorri de forma maléfica. Vejo seus dentes pontiagudos, como os de um vampiro, e temo que ela irá me atacar.

Fecho os olhos enquanto suas mãos pressionam meu pescoço, me sufocando. Tento gritar para acordar minha mulher, porém minha voz não sai.

De repente, meu corpo é atirado de uma ponta a outra da cama, com a mulher me pressionando como se quisesse me afundar no colchão e nas cobertas. Por incrível que pareça, com tudo isso, minha esposa permanece dormindo. Ainda com as mãos da agressora em meu pescoço, não consigo gritar.

A estranha mulher aproxima a cabeça do meu pescoço. Sinto seu hálito quente próximo ao meu ouvido. Vejo que é chegada a hora do ataque final. Uma dor violenta é o resultado dela cravando os dentes em meu pescoço. Depois disso, vou aos poucos sentindo fraqueza. Meu corpo fica mole e minhas pálpebras, cansadas. Adormeço.

Não sei dizer quanto tempo se passou, no entanto ainda está escuro. Minha mulher continua dormindo. Para ela, nada aconteceu.

Foi um sonho?

Só que meu pescoço dói. Passo os dedos e vejo que há, de fato, duas feridas nele. Deve ter sido um sonho. Nada daquilo aconteceu. Vai ver que algum bicho me mordeu.

Aproximo a cabeça da minha mulher e escuto sua respiração ofegante.

– Foi um sonho mesmo – digo, meio que para me tranquilizar.

Entretanto, algo me faz pular da cama. À minha frente, um menino, com idade em torno de oito anos, de pele tão clara quanto a aparição anterior, com cabelos também negros e manchas escuras ao redor dos olhos, vestido com uma camisa social e uma bermudinha, como aqueles uniformes antigos de escolas. Não parece uma criatura deste mundo. Olho para minha mulher e ela, para meu desespero, não demonstra que irá despertar.

Sem mover um dedo ou piscar, a criança fala:

– Sabe onde está minha mãe?

Mal posso falar:

– Que mãe?

– Minha mãe, ora. Ela disse que ia sair pra comer.

Achando que estou enlouquecendo ou ainda preso a um pesadelo, digo:

– Comer?

– Sim. E por falar nisso: também estou com fome. Tem algo pra comer?

– Não. Não tenho nada.

Para meu horror, vejo que o menino abre largo sorriso, verdadeira expressão do mal. Ele começa a se aproximar de mim.

E tudo que posso fazer é gritar.

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2 pensamentos sobre “Dentes noturnos

  1. Marcelo,

    Gostei muito do seu texto!

    A narrativa é compacta e cria uma forte expectativa!
    Há uma cadência, um ritmo, que deixa a respiração do leitor algo como que interrompida.
    Achei o fluxo narrativo perfeito!

    Cada trabalho seu é uma experiência artística para quem o lê ou para quem o vê nos seus traçados.
    Artista como você não dá pra gente esperar por menos!

    Meus Parabéns!

    Forte Abraço!

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