Ideias na mente e coragem no coração

Marcelo Oliver

A imagem me chama a atenção. Um rapaz com idade entre 18 e 20 anos, com um cartaz pendurado no pescoço no qual aparece escrito: “Promoção de Natal. Livro 1 real. Sou o autor”. Na mão, o jovem acena com exemplares de suas obras.

Converso rapidamente com ele e descubro que se chama Marcelo Oliver. O título oferecido leva o nome de A Caneta. Conta a história de um bebê que descobre a escrita após arrancar a pena de um pássaro e riscar-se com o sangue da pluma do animal. As ilustrações não têm crédito, mas, pelos variados estilos, deduzo que foram pegas na internet.

Dividida em breves parágrafos, distribuídos em três páginas, a publicação é fotocopiada numa papelaria da avenida W3 Sul, formato que lembra automaticamente os poetas marginais da década de 70, como Wally Salomão, Chacal, Ana Cristina César e Francisco Alvim. Tais criadores usavam o mimeógrafo ou a xerox para produzir seus trabalhos de maneira independente, à margem das grandes editoras, e muitas vezes saíam vendendo pelas ruas, nos bares, numa atitude semelhante à de Marcelo Oliver.

O artista afirma que já escreveu cerca de 50 livros dessa forma e os vende pelos semáforos de Brasília. Consegue comercializar em torno de 40 exemplares por dia. Garante que o dinheiro o sustenta e ainda financia novas impressões.

Pergunto sobre seu processo criativo e Marcelo revela: “As ideias surgem na minha cabeça. A partir daí, vou colocando no papel”. O rapaz também me diz que adora ler, embora não consiga citar nenhum título de memória. “Leio o tempo inteiro e aprendo muito com isso. Acabo usando os conhecimentos que adquiro na minha vida”, destaca.

Quando entro no assunto dos estudos, o garoto fala que mal iniciou o ensino fundamental e parou. Porém, com ironia refinada, comenta um período da história do Brasil para falar de sua experiência escolar: “Gosto de brincar e invento que a professora me perguntava quem tinha descoberto o Brasil. Ao invés de responder que foi Pedro Álvares Cabral, eu dizia que foram os índios”.

Evidentemente, a pouca formação influencia os textos de Marcelo Oliver. Há erros de ortografia e às vezes o leitor se perde com certa ausência de coesão. Mas nada disso realmente importa para um menino humilde que há dois anos deixou o Tocantins e se mudou para Taguatinga, cidade próxima à capital do país, a fim de realizar o sonho de virar escritor, com coragem, pondo suas ideias no papel.

Penso o quão longe ele pode ir se tiver a oportunidade de seguir com seus estudos, para desenvolver seu texto e continuar a publicar seus livros. Força de vontade ele já tem. Trata-se de um guerreiro, que consegue muito com bem pouco, ainda mais em um país onde a cultura nem sempre recebe o tratamento merecido.

Desejo sucesso para Marcelo Oliver. Que possamos ouvir muito falar dele nos próximos anos.

Serviço:
Telefone do autor: (61) 9254-9512

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