Egberto Gismonti e Orquestra à Base de Sopros mostram alma da música brasileira

Foto: divulgação
gismonti

Antes de começar a falar da série de apresentações que o compositor e instrumentista Egberto Gismonti realiza ao lado da Orquestra à Base de Sopro de Curitiba, neste fim de semana, na Caixa Cultural, em Brasília, vou contar uma breve história.

Há 17 anos, eu trabalhava no caderno de cultura do Jornal de Brasília. Naquele ano, tive oportunidade de entrevistar Gismonti, que lançava CD gravado com a Orquestra Sinfônica da Lituânia. Na conversa, ao falar sobre sua música, o artista disse algo interessante. Segundo ele, no Brasil existe uma sonoridade que transcende as fronteiras entre popular e erudito, com elementos de ambos os gêneros, mas resultando em algo diferente, digamos, uma “terceira via”.

Na entrevista, Egberto se incluiu nessa escola, ao lado de Villa-Lobos, Radamés Gnatalli e Hermeto Pascoal. Seriam criadores nos quais a vertente clássica se encontra com o frevo, o choro, o baião, as canções folclóricas e tantos outros ritmos do povo.

Voltamos ao presente. Ouvindo as dezenas de discos gravados por Egberto Gismonti e assistindo a um concerto como o que foi visto na noite de sábado (15 de novembro) e que se reapresentará no domingo (16), junto com a Orquestra à Base de Sopros, constata-se que a obra desse autor não tem limites estilísticos. Trata-se de temas sofisticados que nunca se distanciam da identidade nacional. Identidade miscigenada, como bem frisou o músico.

Nas duas horas de apresentação, Egberto se divide entre o piano e a regência do grupo, composto por 17 jovens talentos. O público se depara com uma retrospectiva de mais de 40 anos de carreira. Ouvem-se composições como Água e Vinho, Anéis, Karatê, Sonhos de Recife, Música de Sobrevivência, Forrobodó e a mais conhecida de todas do universo gismontiano: Frevo.

Música erudita, avant-garde, jazz, choro, frevo e o som das bandinhas de cidades do interior dialogam durante o espetáculo, numa constelação de melodias, harmonias, ritmos e timbres, às vezes numa atmosfera calma, às vezes numa verdadeira revolução furiosa a la Stravinsky. Gismonti sabe explorar a riqueza da orquestra, que também conta com percussão, teclado e contrabaixo em meio a flautas, saxofones, clarinetes e trompetes. E o band leader, claro, brilha como sempre com seu virtuosismo e refinamento nas teclas.

Em meio à fantástica performance musical, Egberto, com seu eterno e enorme rabo de cavalo, brinda a plateia com divertidas histórias para ilustrar cada número apresentado. Um dos belos instantes é quando conta que em determinado momento de sua vida, na juventude, seu maior objetivo era ser como um tio, maestro da bandinha do município de Carmo (RJ), terra natal do instrumentista. “Até hoje, esse meu tio me acompanha por onde vou”, disse, em referência metafórica à influência do parente. E, de certa forma, com toda a complexidade presente em sua obra, Egberto Gismonti ainda conserva muito dessa pureza interiorana, um traço fundamental da alma brasileira.

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