Artesã de joias poéticas

andrade

A cena poética de Brasília vive plena efervescência, com uma geração de autores que dão gás a essa agitada história. Carla Andrade está entre eles. Mineira radicada no Planalto Central há 14 anos, já ganhou prêmios, participou de coletâneas e publicou Conjugação de Pingos de Chuva, em 2007, livro de estreia, e Artesanato de Perguntas, em 2013. Este saiu patrocinado pelo Fundo de Apoio à Cultura (FAC) do Distrito Federal.

Chama a atenção na poeta sua absoluta sensibilidade e suavidade na criação dos versos, num trabalho muito sensorial, diria, inclusive, sensual. O Artesanato de Perguntas dialoga com diversas trilhas. A escritora atua como viajante pelas estrofes, que nos conduzem por outros países, pelos céus, pelos campos, ao longo de seis capítulos.

Um dos poemas que mais gostei é Novelo, no qual percebi um toque épico. Aparentemente, um preâmbulo à morte, na verdade o texto encarna a vida, repleto de sensações e lembranças, em um clima de imagens bucólicas desfilando cores entre Drummond e Manoel de Barros. Fica breve amostra de uma primorosa sequência de versos: “Durante o dia, molhe os lábios no sol/a berrar entre as cortinas./Quadrados de luz projetados/na parede em meio à ventania. Lembre-se do toque proibido/no corpo alvo entre lençóis quarados./Solidão ardente.”

Também curti muito Horizonte de Cinzas, retrato que foge dos habituais tons ufanista e messiânico de homenagens à Brasília, musa inspiradora do poema. Carla escreve em belas linhas tortas que reconstroem a capital por meio de atributos não tão badalados. Destaco: “Brasília nasceu quase morta,/asmática de vertigens,/rampa aérea para náuseas do horizonte”.

Deixo ainda menção ao capítulo 2, intitulado Palavras Tântricas, no qual a escritora experimenta construções como Tumor de Palavras e Meias de Porcelana, mas deixo a cargo dos leitores a descoberta do provocativo conteúdo.

Merecem citação neste Artesanato de ideias as ilustrações de Marina Soares, cujo ar retrô me lembrou desenhistas de quadrinhos dos anos 30, como Phil Davis (Mandrake e Fantasma), e o projeto gráfico e a capa arrojada de Célio Martins formando um ponto de interrogação. Colaborações que dão mais encanto às joias poéticas de Carla Andrade. Que venha o próximo!

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