Morre criador do Chaves, Roberto Bolaños

chavito

O ator mexicano Roberto Gómes Bolaños morreu nessa sexta-feira (28 de novembro) aos 85 anos. Há algum tempo, o humorista enfrentava um quadro delicado de saúde. Uma perda para o mundo da comédia, porém, o ator há de permanecer nos personagens que imortalizou: o anti-herói Chapolin Colorado e, principalmente, o garoto Chaves. Mais de quatro décadas após suas criações, eles continuam a encantar o público do mundo, particularmente da América Latina.

Simplicidade foi a fórmula para o sucesso de Chaves (El Chavo del 8, em espanhol), produzido pela Televisión Independiente de México (Televisa). Se o cenário era o mais simples possível, raramente usando algum efeito especial, o seriado cativou os espectadores pela originalidade dos tipos e pelo talento dos intérpretes.

Bolaños encarnava um chapliniano garoto pobre e órfão, revestido de pureza, que vivia em uma comunidade de baixa renda. Também se destacavam nos enredos Quico (Carlos Villagrán), Chiquinha (Maria Antonieta de las Nieves), o Professor Girafales (Rubén Aguirre), Seu Madruga (Ramón Valdés), Dona Florinda (Florinda Meza), Seu Barriga (Edgar Vivar) e Dona Clotilde, a Bruxa do 71 (Angelines Fernández).

Chaves e Quico criavam enormes trapalhadas. Cabia a Seu Madruga a tarefa árdua de aguentar as confusões dos guris, fugir de Seu Barriga para não pagar o aluguel, escapar das investidas amorosas de Clotilde e ainda suportar as bordoadas de Dona Florinda. Essas situações se desenrolavam no mais puro e clássico humor pastelão, numa tradição de nomes como O Gordo e o Magro e Os Três Patetas, mas com certa crítica social. Em meio aos tumultos, Chaves nos deliciava com frases como “Foi sem querer querendo”, “É que me escapuliu” ou “Comigo ninguém tem paciência”.

Inicialmente, Chavito apareceu no programa Chespirito (apelido de Bolaños numa referência a William Shakespeare), em 1971. Não demorou para que ganhasse seu próprio espaço televisivo, com um impacto estrondoso. Logo, o seriado extrapolou as fronteiras mexicanas, virando sucesso na América Latina inteira. Entretanto, a popularidade do menino do barril e de seus colegas não se restringiu às nações de idioma hispânico. El Chavo teve dublagens em mais de 50 países, como Angola, China e Japão.

No Brasil, não foi diferente. Transmitido pelo canal SBT, que também exibe Chapolim Colorado, há décadas Chavinho conquista crianças e adultos. Ele, Quico e Seu Madruga passaram a ser tão cultuados aqui quanto Mussum, dos Trapalhões.

Eu que sou fã desse incrível comediante não poderia deixar de fazer uma homenagem a Roberto Bolaños. Não vamos lembrar dele com tristeza e sim dando boas gargalhadas assistindo ao Chaves. Continuar nos fazendo rir é, acima de tudo, o ato mágico de um grande artista.

Ideias na mente e coragem no coração

Marcelo Oliver

A imagem me chama a atenção. Um rapaz com idade entre 18 e 20 anos, com um cartaz pendurado no pescoço no qual aparece escrito: “Promoção de Natal. Livro 1 real. Sou o autor”. Na mão, o jovem acena com exemplares de suas obras.

Converso rapidamente com ele e descubro que se chama Marcelo Oliver. O título oferecido leva o nome de A Caneta. Conta a história de um bebê que descobre a escrita após arrancar a pena de um pássaro e riscar-se com o sangue da pluma do animal. As ilustrações não têm crédito, mas, pelos variados estilos, deduzo que foram pegas na internet.

Dividida em breves parágrafos, distribuídos em três páginas, a publicação é fotocopiada numa papelaria da avenida W3 Sul, formato que lembra automaticamente os poetas marginais da década de 70, como Wally Salomão, Chacal, Ana Cristina César e Francisco Alvim. Tais criadores usavam o mimeógrafo ou a xerox para produzir seus trabalhos de maneira independente, à margem das grandes editoras, e muitas vezes saíam vendendo pelas ruas, nos bares, numa atitude semelhante à de Marcelo Oliver.

O artista afirma que já escreveu cerca de 50 livros dessa forma e os vende pelos semáforos de Brasília. Consegue comercializar em torno de 40 exemplares por dia. Garante que o dinheiro o sustenta e ainda financia novas impressões.

Pergunto sobre seu processo criativo e Marcelo revela: “As ideias surgem na minha cabeça. A partir daí, vou colocando no papel”. O rapaz também me diz que adora ler, embora não consiga citar nenhum título de memória. “Leio o tempo inteiro e aprendo muito com isso. Acabo usando os conhecimentos que adquiro na minha vida”, destaca.

Quando entro no assunto dos estudos, o garoto fala que mal iniciou o ensino fundamental e parou. Porém, com ironia refinada, comenta um período da história do Brasil para falar de sua experiência escolar: “Gosto de brincar e invento que a professora me perguntava quem tinha descoberto o Brasil. Ao invés de responder que foi Pedro Álvares Cabral, eu dizia que foram os índios”.

Evidentemente, a pouca formação influencia os textos de Marcelo Oliver. Há erros de ortografia e às vezes o leitor se perde com certa ausência de coesão. Mas nada disso realmente importa para um menino humilde que há dois anos deixou o Tocantins e se mudou para Taguatinga, cidade próxima à capital do país, a fim de realizar o sonho de virar escritor, com coragem, pondo suas ideias no papel.

Penso o quão longe ele pode ir se tiver a oportunidade de seguir com seus estudos, para desenvolver seu texto e continuar a publicar seus livros. Força de vontade ele já tem. Trata-se de um guerreiro, que consegue muito com bem pouco, ainda mais em um país onde a cultura nem sempre recebe o tratamento merecido.

Desejo sucesso para Marcelo Oliver. Que possamos ouvir muito falar dele nos próximos anos.

Serviço:
Telefone do autor: (61) 9254-9512

Egberto Gismonti e Orquestra à Base de Sopros mostram alma da música brasileira

Foto: divulgação
gismonti

Antes de começar a falar da série de apresentações que o compositor e instrumentista Egberto Gismonti realiza ao lado da Orquestra à Base de Sopro de Curitiba, neste fim de semana, na Caixa Cultural, em Brasília, vou contar uma breve história.

Há 17 anos, eu trabalhava no caderno de cultura do Jornal de Brasília. Naquele ano, tive oportunidade de entrevistar Gismonti, que lançava CD gravado com a Orquestra Sinfônica da Lituânia. Na conversa, ao falar sobre sua música, o artista disse algo interessante. Segundo ele, no Brasil existe uma sonoridade que transcende as fronteiras entre popular e erudito, com elementos de ambos os gêneros, mas resultando em algo diferente, digamos, uma “terceira via”.

Na entrevista, Egberto se incluiu nessa escola, ao lado de Villa-Lobos, Radamés Gnatalli e Hermeto Pascoal. Seriam criadores nos quais a vertente clássica se encontra com o frevo, o choro, o baião, as canções folclóricas e tantos outros ritmos do povo.

Voltamos ao presente. Ouvindo as dezenas de discos gravados por Egberto Gismonti e assistindo a um concerto como o que foi visto na noite de sábado (15 de novembro) e que se reapresentará no domingo (16), junto com a Orquestra à Base de Sopros, constata-se que a obra desse autor não tem limites estilísticos. Trata-se de temas sofisticados que nunca se distanciam da identidade nacional. Identidade miscigenada, como bem frisou o músico.

Nas duas horas de apresentação, Egberto se divide entre o piano e a regência do grupo, composto por 17 jovens talentos. O público se depara com uma retrospectiva de mais de 40 anos de carreira. Ouvem-se composições como Água e Vinho, Anéis, Karatê, Sonhos de Recife, Música de Sobrevivência, Forrobodó e a mais conhecida de todas do universo gismontiano: Frevo.

Música erudita, avant-garde, jazz, choro, frevo e o som das bandinhas de cidades do interior dialogam durante o espetáculo, numa constelação de melodias, harmonias, ritmos e timbres, às vezes numa atmosfera calma, às vezes numa verdadeira revolução furiosa a la Stravinsky. Gismonti sabe explorar a riqueza da orquestra, que também conta com percussão, teclado e contrabaixo em meio a flautas, saxofones, clarinetes e trompetes. E o band leader, claro, brilha como sempre com seu virtuosismo e refinamento nas teclas.

Em meio à fantástica performance musical, Egberto, com seu eterno e enorme rabo de cavalo, brinda a plateia com divertidas histórias para ilustrar cada número apresentado. Um dos belos instantes é quando conta que em determinado momento de sua vida, na juventude, seu maior objetivo era ser como um tio, maestro da bandinha do município de Carmo (RJ), terra natal do instrumentista. “Até hoje, esse meu tio me acompanha por onde vou”, disse, em referência metafórica à influência do parente. E, de certa forma, com toda a complexidade presente em sua obra, Egberto Gismonti ainda conserva muito dessa pureza interiorana, um traço fundamental da alma brasileira.

Espetáculo Leo põe arte de ponta-cabeça

leo

Como a realidade pode ser alterada conforme a perspectiva pela qual a observamos, mesmo que se restrinja a um pequeno quarto no qual um homem aparece confinado. Esse é o ponto de vista desenvolvido no espetáculo alemão Leo, que depois de passar por vários palcos internacionais agora está em turnê pelo Brasil. Uma realização da companhia Circle of Eleven, dirigida por Daniel Briére, a peça tem como performer solo o incrível Julian Schulz. A produção apresenta roupagem vanguardista, numa combinação de teatro, dança e animação.

Tudo acontece num cenário dentro de um retângulo. A grande sacada é uma câmera registrando as imagens do ator por um ângulo diferente e transmitindo num telão ao lado do espaço real, de maneira que ele aparece deitado no cenário de verdade e em pé na projeção. A partir daí, Julian Schulz realiza as maiores estripulias, brincando justamente com a relativização do espaço e a ilusão apresentada pelas lentes. Por meio da alteração dos movimentos do mundo real, ele consegue desafiar as leis da gravidade e alcançar proezas como andar pela parede ou fazer com que a água que sai de uma garrafa pareça se dobrar no ar e se projetar para dentro de sua boca. Na plateia, tanto crianças quanto adultos ficam alucinados com o que veem e não poupam gargalhadas. Magia pura!

Apesar da grande sacada visual, a elasticidade de Schulz faz a grande diferença. Com absoluto domínio, ele apoia todo o corpo em apenas uma das mãos, anda plantando bananeira e se estica pela parede como o super-herói Homem Borracha, dos quadrinhos. A peça ainda conta com recursos de animação. Em uma das cenas, o cenário filmado se enche de água, com direito a baleias, tubarões e submarinos, enquanto o protagonista nada de forma lúdica. De cair o queixo.

Também merece menção a trilha sonora, com a qual o corpo de Julian Schulz interage em instantes de dramaticidade ou leveza. No som, a 7ª Sinfonia de Beethoven, música erudita contemporânea e até Slayer. Leo passou por Brasília no último fim de semana e da próxima quinta-feira a domingo será apresentado na Caixa Cultural, em Salvador. A peça é recomendada aos que apreciam a fantasia sem fronteiras e se deixam levar às terras do encantamento.

Deep Purple volta a agitar fãs em nova turnê brasileira

Foto: Jim Rakete
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Os veteranos da banda inglesa Deep Purple ainda têm muito o que mostrar aos amantes do rock. É o que se vê na recente turnê do grupo, Now What?!, que passa por cinco cidades brasileiras. Entre clássicos dos anos 70 e canções mais novas, o quinteto esbanja energia e peso.

Perfect Strangers, Lazy, Into the Fire, Space Truckin, Hard Lovin Man, Strange Kind of Woman, Hush e Smoke on the Water, que tem um dos riffs mais populares de todos os tempos. Não falta repertório para agitar os batedores de cabeça, sejam eles sessentões, que escutavam o Purple há mais de quatro décadas, ou adolescentes que descobriram o conjunto na atualidade. Em todos esses milhares de fãs um ponto em comum: a paixão por um dos pioneiros do heavy metal ao lado de artistas como Led Zeppelin, Black Sabbath, Blue Cheer, Cream e Jimi Hendrix.

Toda essa história, iniciada em 1968, tem como fio condutor o baterista Ian Paice, único remanescente da formação original. Aos 66 anos, ele continua um monstro dos tambores, equilibrando peso e sofisticação em sua pegada.

Completa a cozinha rítmica Roger Glover, membro do line-up clássico, entre 1969 e 1973, que retornou ao grupo em 1984. Glover incendeia o palco com seu baixo potente.

O vocalista Ian Gillan, outro participante da era de ouro do Deep Purple, certamente é o que mais sofre os efeitos do tempo por razões óbvias. Mas, mesmo com limitações, esse senhor de 69 anos canta com beleza, baseado no sentimento do blues, e até arrisca uns gritos agudos que fazem lembrar os velhos tempos. Mil vezes um Gillan vovô, até perdendo o fôlego de vez em quando, do que essa molecada metaleira metida a cantor de opera que vulgariza a técnica.

Os membros mais novos do quinteto inglês, o guitarrista Steve Morse e o tecladista Don Airey, fazem bonito. Para mim o valor deles está em colocar suas personalidades na música sem desfigurar uma das instituições do rock’n’roll. A tarefa não soa nada fácil quando Morse e Airey substituem, respectivamente, dois ícones roqueiros, Ritchie Blackmore e Jon Lord, este falecido em 2012.

Steve Morse concilia um trabalho de guitarra heavy tradicional com escalas virtuosísticas. Airey, por sua vez, veterano que já atuou com Rainbow, Jethro Tull, Colosseum II, Ozzy Osbourne, Gary Moore, Black Sabbath, Whitesnake e tantos outros, traz ao Purple uma bagagem de timbres eletrônicos e eruditos sem abandonar o magnífico som do órgão hammond, marca sagrada de Jon Lord.

Depois de Brasília, na última sexta-feira (7), e Curitiba (9), o Deep Purple toca nesta terça (11) e quarta (12), em São Paulo, na sexta (14), em Florianópolis, e no sábado (15), em Porto Alegre. Quem gosta não deve perder por nada. São quase duas horas de puro prazer com os eternos mestres da pauleira.

Artesã de joias poéticas

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A cena poética de Brasília vive plena efervescência, com uma geração de autores que dão gás a essa agitada história. Carla Andrade está entre eles. Mineira radicada no Planalto Central há 14 anos, já ganhou prêmios, participou de coletâneas e publicou Conjugação de Pingos de Chuva, em 2007, livro de estreia, e Artesanato de Perguntas, em 2013. Este saiu patrocinado pelo Fundo de Apoio à Cultura (FAC) do Distrito Federal.

Chama a atenção na poeta sua absoluta sensibilidade e suavidade na criação dos versos, num trabalho muito sensorial, diria, inclusive, sensual. O Artesanato de Perguntas dialoga com diversas trilhas. A escritora atua como viajante pelas estrofes, que nos conduzem por outros países, pelos céus, pelos campos, ao longo de seis capítulos.

Um dos poemas que mais gostei é Novelo, no qual percebi um toque épico. Aparentemente, um preâmbulo à morte, na verdade o texto encarna a vida, repleto de sensações e lembranças, em um clima de imagens bucólicas desfilando cores entre Drummond e Manoel de Barros. Fica breve amostra de uma primorosa sequência de versos: “Durante o dia, molhe os lábios no sol/a berrar entre as cortinas./Quadrados de luz projetados/na parede em meio à ventania. Lembre-se do toque proibido/no corpo alvo entre lençóis quarados./Solidão ardente.”

Também curti muito Horizonte de Cinzas, retrato que foge dos habituais tons ufanista e messiânico de homenagens à Brasília, musa inspiradora do poema. Carla escreve em belas linhas tortas que reconstroem a capital por meio de atributos não tão badalados. Destaco: “Brasília nasceu quase morta,/asmática de vertigens,/rampa aérea para náuseas do horizonte”.

Deixo ainda menção ao capítulo 2, intitulado Palavras Tântricas, no qual a escritora experimenta construções como Tumor de Palavras e Meias de Porcelana, mas deixo a cargo dos leitores a descoberta do provocativo conteúdo.

Merecem citação neste Artesanato de ideias as ilustrações de Marina Soares, cujo ar retrô me lembrou desenhistas de quadrinhos dos anos 30, como Phil Davis (Mandrake e Fantasma), e o projeto gráfico e a capa arrojada de Célio Martins formando um ponto de interrogação. Colaborações que dão mais encanto às joias poéticas de Carla Andrade. Que venha o próximo!