Eduardo Merçon joga com a impermanência poética

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O Brasil sempre foi terra rica em poetas. Não poderia ser diferente nos tempos atuais. Por todo o país pipoca uma leva de novos escultores dos versos. Um deles é o carioca Eduardo Merçon. Ele acaba de publicar pela Chiado Editora, selo português, sua estreia, Essa Constante Impermanência, livro de extrema riqueza textual e temática.

Carioca de origem lusa, que passou parte da vida entre o Rio e a região portuguesa do Minho, Merçon escolhe a impermanência como tema para empreender viagens metafóricas no Diálogo, nos Sentidos, no Amor e no Mundo. Cada capítulo conduz a devaneios inspirados em cada um destes temas. Na cabeça de um indivíduo inquieto, convivem lembranças, sentimentos, paisagens, canções, visões, sonhos, prazeres e jogos de palavras que alteram os sentidos com a alegria dos brinquedos da meninice.

O livro abre com o Prólogo para o Século XXI, épico apocalíptico e apoteótico sobre o começo de milênio, em que desenvolvimento científico-tecnológico contrasta com conflitos, incoerências e barbáries, eterno antagonismo humano. Esse espírito percebe-se na seguinte estrofe: “Aqui cresce um século/em que o mundo não acabou/e um oráculo cibernético/revela em rede qualquer segredo,/verdadeiro, falso, hipotético,/longe, à distância de um dedo,/sem saber quem consultou”.

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Eduardo Merçon e o guitarrista Jimmy Page, homenageado no livro

Crônica do Rio Entre Lisboa e o Porto manipula ludicamente os significados de palavras equivalentes no português brasileiro e no lusitano, numa referência clara às raízes transoceânicas do artista. “Com fome, ao pequeno almoço/vou-me, tomar o café-da-manhã;/peço a meia-de-leite ao moço/que serve a média e já não estranha./Já não é frio, é maio;/depois do suco, sumo, saio.”, diz uma sequência do poema.

Deixo ainda um comentário sobre outros dois belos momentos. O texto As Cores de Van Gogh homenageia o pintor holandês numa fantasia etérea de jogos sensoriais. Considero sofisticada a abertura: “O sol hoje acordou/recitando Van Gogh/amarelo ouro/amarelo raro/bordando o branco,/desbotando o azul claro”. Para não dizer que Eduardo Merçon não falou de rock’n’roll, ele dedica O Riff de Page ao lendário guitarrista da banda inglesa Led Zeppelin. Os dedos e cordas de Jimmy Page são transpostos em palavras que evocam os efeitos de sua música incandescente. Vejamos estes versos: “Se o riff de Page/é etéreo,/vem do nada,/toma vida no infinito instante/entre a nota e o som vibrante/selvagem, cerebral,/não mais fugaz que perenal.”

No início do ano, perambulando com Eduardo Merçon pelos bares de Ipanema, ele me falou do livro que estava por vir. Saudei com entusiasmo o projeto do meu grande amigo, esse rocker da Cidade Maravilhosa. Em maio, quando o título foi lançado, infelizmente, não consegui comparecer ao evento. Então, fiquei muito feliz quando esta obra chegou até mim, em casa. Li com deleite e recomendo Essa Constante Impermanência, que já marca presença como trabalho importante no cenário literário contemporâneo.

Onde comprar o livro: http://www.chiadoeditora.com/index.php?page=shop.product_details&flypage=flypage.tpl&product_id=2218&category_id=3&option=com_virtuemart&Itemid=171&vmcchk=1

Cinco décadas de You Really Got Me

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Há canções que dão novos rumos à história da música pela forma como mexem com a cabeça dos seus ouvintes. Uma delas, sem dúvida, é You Really Got Me, da banda inglesa The Kinks, que neste mês de setembro comemora 50 anos de seu lançamento. Cinco gerações já chacoalharam seus corpos e bateram cabeça ao som desta melodia. Terceiro single do quarteto britânico e escrito pelo vocalista Ray Davies, esse tema pode ser considerado um dos marcos do que veio a ser chamado anos mais tarde de Heavy Metal.

Uma entrada com um riff de guitarra pesado, seguido pela cozinha rítmica com uma bateria de timbre seco e um baixo com forte marcação. Qualquer semelhança com a base de inúmeros grupos que ensurdeceram o mundo na virada da década de 60 pra 70 não é coincidência. Com essa sonoridade, a banda então formada pelos irmãos Ray Davies (vocais e guitarra base), Dave Davies (guitarra solo), Peter Quaife (baixo) e Mick Avory (bateria) abriu caminho para que o rock’n’roll se tornasse mais sujo e agressivo. Combinado a isso, o vocal relaxado e original de Ray antecipava uma atmosfera punk, outro gênero que deve bastante aos Kinks.

You Really Got Me catapultou os rapazes nas paradas. Logo, viraram celebridade e um dos maiores nomes da chamada British Invasion (Invasão Britânica), fenômeno que, a partir de sua terra natal, tomou conta dos Estados Unidos e do mundo, ao lado de artistas como Beatles, The Who, Rolling Stones e Animals. Já a célebre composição ganhou muitos covers. O mais famoso deles é justamente de uma banda de heavy metal, o Van Halen, em seu primeiro disco, de 1978.

Curiosamente, esse incrível hit do quarteto nasceu com uma polêmica que perdura até hoje, a de que o guitarrista Jimmy Page, então ativo session man na cena musical inglesa, teria tocado o solo. De fato, o estilo da guitarra lembra muiiiiiiiiiiiito o de Page. Porém, os Kinks sempre negaram a participação do futuro líder do Led Zeppelin. O próprio Page declarou em 1970 não ter tocado na faixa. Até hoje, para provocar os irmãos Davies basta reacender a discussão. Recentemente, Dave Davies se enfureceu e acusou a TV BBC de mentir sobre esse fato em um documentário. “Eu inventei aquele som distorcido de guitarra e toquei o solo de You Really Got Me”, frisou. Mas, além do estilo do solo pageano, há evidências contrárias. O falecido Jon Lord, teclista do Deep Purple, disse numa entrevista que ele havia tocado piano e Page a lead guitar no single dos Davies e companhia.

Sabe-se lá se um dia conheceremos a verdade. De algo, entretanto, não se duvida: You Really Got Me é uma das melhores canções da história do rock e continua enxuta 50 anos depois.

Marcelo Araújo está na Bacanal

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Com quatro livros editados, tenho agora a oportunidade de participar pela primeira vez de uma revista literária, a Bacanal, cujo número 2 chega ao mercado. A publicação tem como organizadores Luiz Reis e Fábio Lucas, dois artistas que atuam tanto com as palavras quanto nas artes visuais.

O primeiro número saiu em 2013 e trazia apenas material de Reis e Lucas, proprietários da editora Nautilus, responsável pelo projeto. Este ano, a dupla decidiu abrir a iniciativa a outros autores, sendo selecionados 18 nomes.

bananada e bananeira

Contribuí para a revista com um conto de terror inédito chamado Bananada e Bananeira. Não vou entrar em detalhes sobre a história, que fala de dois misteriosos palhaços de circo.

Considero importantes ações desse tipo, pois abrem caminhos à divulgação de novos escritores. Alguns dos que estão na Bacanal, até a chegada deste exemplar à praça, nunca haviam publicado nada. Ou seja, agora já têm uma vitrine.

Parabéns pela ideia e que ela cresça com força nos próximos anos. A cultura brasileira está precisando.