Lembramos do nosso Cassiano

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Uma das grandes frustrações na história da música brasileira foi a interrupção da carreira do cantor, compositor e guitarrista Cassiano, no final dos anos 70. Ele havia gravado três discos solos memoráveis que sintetizam o movimento soul brasileiro. Por um problema de saúde, a perda de um dos pulmões, em 1978, Cassiano parou de usar sua voz.

O talentoso artista voltou em 1991, com uma faixa no songbook lançado pelo saudoso produtor Almir Chediak dedicado a Noel Rosa. No mesmo ano, lançou um CD com participações de Ed Motta, Marisa Monte e vários outros . O que parecia ser um retorno em alto estilo ficou por ali mesmo e Cassiano continuou apenas compondo e participando de alguns shows. 

No próximo dia 16 de setembro, ele completa 70 anos. Bem que poderia pintar uma reedição dos seus trabalhos em uma caixa, o lançamento de um disco que dizem que sobrou da sua época de ouro, um novo álbum ou mesmo uma coletânea. Porém, não vi aceno nesse sentido. Uma pena. Mostra que por mais influente que seja, celebrado tanto por um Ed Motta quanto pelo pessoal do axé, um dos maiores nomes da MPB permanece em esquecimento por parte da mídia e da indústria fonográfica. Tremenda injustiça. 

Genival Cassiano dos Santos nasceu em Campina Grande, na Paraíba, mas ainda criança se mudou com a família para o Rio de Janeiro. Começou a carreira em 1964, tocando violão em um grupo chamado Bossa Trio. Poucos anos depois, formou o conjunto vocal Os Diagonais, bastante influenciado pela soul music e o funk americanos, no entanto, com um toque brasileiro.

O grupo gravou apenas um álbum, na virada da década de 60 para 70. Bastou para que se tornasse referência, com as composições, as belas harmonias vocais e o ritmo suingado. O quarteto foi convidado por Tim Maia para participar do primeiro LP do Síndico, em 1970, no qual imprimiu sua marca registrada nas vozes de acompanhamento. Além disso, Tim gravou no disco Primavera, composição de Cassiano e Sílvio Rochael. 

No ano seguinte, Cassiano gravou seu primeiro álbum individual, o incrível Imagem e Som, que também trazia a presença dos companheiros dos Diagonais. Com simplicidade no canto, quase falado, e letras com as mais diversas inspirações, da polêmica provocada pelo surgimento da bossa nova aos ideais de paz e amor dos hippies, o disco apresentava ora canções dançantes, ora temas românticos. Em 73, lançou Apresentamos nosso Cassiano, mais uma obra-prima, soul com forte presença de refinados elementos acústicos. 

Em 1976, foi a vez de Cuban Soul, terceira pérola solo de Cassiano. Trata-se do álbum com os sucessos A Lua e Eu, tema da novela global O Grito, e Coleção, uma das músicas mais regravadas no pop brasileiro. Tem também Onda, um funk que evoca mestres do gênero como Curtis Mayfield, imerso em alma tropical. 

Como a esperança é a última que morre, a gente fica esperando que num dia, não tão longínquo, Cassiano receba o devido reconhecimento por uma obra que é pequena na quantidade de discos lançados, entretanto imensa na qualidade de cada canção. Amém!

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Eu não sei contar piada

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Uma das situações mais constrangedoras que podem ocorrer é uma piada sem graça, principalmente pra quem ouve. Quem conta não está nem aí e só quer uma audiência para desfilar seu semgracismo.

Certamente, você já se deparou com a seguinte cena: chega um sujeito bonachão e fala uma anedota fraca. Para não parecerem indelicados, os ouvintes soltam aquele risinho forçado, com o intuito de mostrar que acharam divertido. Na verdade, no íntimo, todo mundo pensou: “É pra rir?”.

Um dos sintomas de que uma piada sem graça acabou de ser narrada é quando a plateia começa a citar trechos, meio que para afirmar que foi divertido. Caso observe as pessoas comentando a piada no lugar de darem estrondosas gargalhadas é porque realmente a história não teve graça alguma.

Eu me libero de bancar o cômico. Não aprendi o ofício. Deixo para os profissionais, esses sim, especialistas nesse trabalho, que exige uma técnica fantástica, com timing certo, no qual até o ritmo da narrativa influencia o resultado.

Esticando o assunto, considero que para ser engraçado não é necessário apelar a situações exageradas ou de baixo calão. Para fazer rir, muitas vezes, basta agir com naturalidade ou pelo menos fingir isso.

Dizem que os maiores comediantes não são aqueles que estampam um largo sorriso e caem nas macaquices. Buster Keaton, um dos melhores humoristas de todos os tempos, carregava uma expressão fechada o tempo inteiro. Chaplin também passava longe do gênero histriônico e usava a simplicidade como matéria-prima. E o que dizer de Woody Allen, capaz de transformar as grandes angústias e medos da humanidade em objeto de chacota com seu jeito de eterno deprimido?

Tenho temor do engraçadinho, o falso comediante, aquele que utiliza o banal para alegrar a turma. Ser engraçadinho, definitivamente, não é ser engraçado.

Por isso, para os engraçadinhos de plantão, fica aquele velho recado: se você não tem nada de interessante a dizer, por favor, permaneça calado.