O Baú

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Era conhecido por Tião Zonzura, devido ao gosto que tinha pela bebida. Zonzura é como o pessoal lá do interior de Goiás se refere ao efeito que a pessoa sente por estar zonza, após ingerir grande quantidade de álcool.

– O bão da bebida é a zonzura – dizia Tião, orgulhoso ao consumir certa quantidade de pinga.

Outra frase que falava com frequência é que seu sonho era ter sido cachaceiro.

– Eu tinha um primo que só ficava bebendo, enquanto eu trabalhava catorze horas por dia, sô! – relatava.

Após anos de trabalho incansável na lavoura e na criação de gado, Tião conquistara para si uma vida mais tranquila. Sua propriedade crescera e ele tornara-se um homem rico. No fim do dia, gostava de ficar na porta de casa olhando suas terras, que pareciam não ter fim.

Porém, um dia, a má sorte cruzou o caminho de Tião Zonzura.

Um dos seus empregados num trator levantava a terra em uma área a cerca de trezentos metros atrás da casa. A ideia era fazer um laguinho para criar peixes. De repente, o homem no trator sentiu que a escavadeira encostara em algo sólido.

– Tem alguma coisa aí embaixo, Seu Tião.

O empregado desligou a escavadeira. Desceu do trator e com a ajuda de outro funcionário da fazenda foi até o buraco para ver do que se tratava. Com as próprias mãos, tiraram a terra, para descobrir que ali estava um enorme pedaço de madeira escuro.

– O que será isso? – perguntou Tião Zonzura.

Com pás, os dois trabalhadores cavaram ao redor e viram, para espanto geral, que a coisa enterrada era um caixão.

– Meu Deus do céu! – gritou um deles.

Tião correu para perto dos rapazes.

– Enterraram alguém nas minhas terras, sô!

O fazendeiro então se lembrou das histórias que narravam que existia muito cadáver enterrado nas redondezas. Antigamente, como não havia cemitério na cidade, as famílias costumavam a sepultar seus mortos perto de onde moravam.

– E o que a gente faz com isso, Seu Tião? – perguntou o empregado do trator.

– Melhor não mexer com isso não, homem. Ocê não é doido de abrir o caixão e tirar o defunto daí. Olha que ele vai voltar pra puxar seu pé.

– Deus me livre e me guarde, Seu Tião! – disse o rapaz, fazendo o sinal da cruz com cara de assustado.

Tião deu uma risada.

– Deixa de ser frouxo. Conversa! Tô brincando com ocê. E esse negócio de fantasma lá existe?

– Olha, Seu Tião, meu pai me falou uma vez que viu um espírito ali perto do rio.

– Conversa! Seu pai, com todo respeito, devia era ter tomado umas canas pra ver alma do outro mundo.

Pensativo, Tião Zonzura achou melhor guardar o caixão em algum lugar até decidir que fim dar àquilo.

– Vamos fazer o seguinte. Chamem o resto do pessoal e carreguem esse caixão ali pra perto do celeiro. Amanhã, telefono à prefeitura pra eles darem um jeito de pegar isso e levar pro cemitério. Até porque vamos precisar fazer o lago e aí esse caixão não pode ficar.

Conforme a ordem do patrão, os empregados retiraram o caixão e o carregaram para perto do celeiro, a alguns metros da casa. Tião não deixou de notar o temor nos olhos dos funcionários, como se tivessem profanado algo sagrado. Mas, obedeciam cegamente às ordens do chefe sem questionar nada, pois ninguém queria perder o emprego.

– Acho que vou à missa hoje – disse um deles.

– Que missa o quê! Ocê vai é tomar cachaça que eu sei – repreendeu Tião.

Os homens olharam para ele, com medo. Pareciam perguntar com seus olhares se o patrão realmente tinha a intenção de largar aquele caixão ao ar livre, no meio da fazenda.

– Deixem isso aí e vão pra casa. Amanhã ligo pra prefeitura e a gente resolve isso.

Já era fim de tarde. Os trabalhadores se dispersaram.

Tião deu uma boa olhada no caixão. Não tinha a menor ideia de quanto tempo aquilo teria. Aparentemente, a madeira, apesar de envelhecida, não trazia rachaduras ou qualquer furo.

Como já escurecia, Zonzura voltou pra casa. Após tomar um banho, jantou um delicioso carneiro que a cozinheira havia preparado.

– Isso aqui tá bão, sô. Delícia esse carneiro, Maria.

– Obrigado, Seu Tião. Os meninos mataram hoje de manhã.

– Bão, sô.

Às oito horas da noite, dispensou a empregada, que partiu.

Como de costume, pegou uma garrafa de cachaça e colocou sobre a mesa, junto com um copo. Enquanto tomava a pinga, ia pensando no caixão. Lembrou-se de várias histórias que contavam que, antigamente, muitas pessoas quando morriam pediam para ser enterradas com alguns de seus pertences, como joias e dinheiro. Havia relatos de verdadeiros tesouros guardados em caixões, o que despertava o interesse do povo. Volta e meia, aparecia algum doido cavando atrás dessas supostas riquezas.

Começou a passar pela cabeça de Tião a possibilidade de abrir o caixão. Quem sabe o que não estaria escondido ali? Questionou que mal haveria de retirar algo de um morto. O defunto não ia precisar de nada. Depois, dava novo enterro digno e tudo se resolvia. A vontade de fazer aquilo foi crescendo a cada gole de pinga. Num determinado momento, apesar da excitação, Tião fechou os olhos e deu um cochilo.

Estava diante do caixão. Ia se aproximar quando ouviu um barulho vindo de dentro. Apavorado, recuou.

Parecia um gemido.

Paralisado de medo, Tião percebeu que a tampa do caixão se abria. Uma mão branca como gelo foi a primeira coisa que viu. Essa mão levantou a tampa do caixão. Tião pensava apenas em sair correndo, no entanto, não conseguia se controlar. Foi aí que uma figura se levantou. Era um homem idoso, vestido de negro. A criatura saltou do caixão e ficou à frente do fazendeiro.

Seus cabelos eram brancos e os olhos, vermelhos como fogo. O ser sinistro estendeu a mão direita na direção de Zonzura, apontando o dedo indicador, como que fazendo um alerta. Então, com uma voz cavernosa, falou:

– Tião, escute o meu aviso. Se abrir esse caixão, a desgraça cairá sobre você.

Tremendo loucamente, o fazendeiro queria gritar, só que a voz não saía. Nisso, o cadáver começou a andar em sua direção, falando:

– Se abrir o caixão, vai encontrar a morte e a maldição eterna. Vai pro inferno!

Quando o defunto chegou bem perto, finalmente, Tião conseguiu dar o grito tão desejado.

– Meu Deus!

Tião pulou da cadeira. À sua frente, a garrafa de pinga quase vazia.

Para seu alívio, constatou que fora apenas um sonho.

Mais calmo, respirou fundo. Passou a mão no rosto e percebeu que suava. Pegou a garrafa e despejou o resto da pinga no copo. Virou a bebida num só gole.

Caminhou até a janela e olhou para a noite estrelada. O pensamento sobre o tesouro do caixão voltou à sua mente, mais forte ainda.

– Quer saber de um negócio? Vou abrir o caixão. O sonho serviu só pra me dizer que esse negócio de desgraça é tudo besteira. Sonho é sonho. Se tiver algo valioso ali, vai ser meu. E homem de verdade não tem medo nem de fantasma e nem de defunto.

Tião saiu de casa rumo ao celeiro. O caixão permanecia ali, como seus empregados o haviam deixado.

– Seu Defunto: se tem alguma riqueza aí, ela agora é minha. Dinheiro pra morto não tem serventia.

Decidido, puxou a tampa. Fez uma força tremenda e conseguiu arrancá-la. Mas a coragem diminuiu quando Tião encarou o cadáver, uma caveira com cabelos brancos. Vestia uma roupa negra, semelhante à da criatura do sonho.

Por um instante, pensou em desistir, no entanto, algo o impediu. Por sobre o peito do cadáver estava um pequeno baú preto. A imagem do objeto estimulou novamente a imaginação do fazendeiro, que vislumbrou um tesouro ali dentro, como moedas de ouro e joias.

Rapidamente, Tião pegou o baú e fechou o caixão, para se ver livre daquele esqueleto.

– Então é verdade: um tesouro! Vou ficar mais rico ainda.

Tião abriu o pequeno baú com facilidade. Estava cheio de notas, porém, não tinham qualquer valor. Era dinheiro antigo. Irritado, o fazendeiro mergulhou a mão no bauzinho e amassou as cédulas com as mãos, jogando-as para o alto. Enfiou novamente a mão e, abaixo de uma última nota, sentiu algo metálico. Tirou a nota e, outra vez, para sua decepção, encontrou apenas um velho crucifixo de metal todo enferrujado, que também retirou do baú e jogou fora.

– Então esse era o tesouro? Que diabo!

Com raiva, Tião Zonzura arremessou o pequeno baú contra a parede do celeiro. Desanimado com o resultado pífio da empreitada, voltou para casa.

Abriu outra garrafa de pinga e tomou mais dois copos. Cansado, resolveu ir se deitar.

Acordou às oito da manhã, com o cheiro do café de Maria. Sentia o corpo mole. Achou que era ressaca da cachaça. Ligou para a prefeitura e pediu que viessem levar o caixão.

Antes dos homens da prefeitura chegarem, Tião contou aos empregados o ocorrido na noite anterior e mostrou o baú no chão, reclamando da inutilidade do objeto e rindo da perda de tempo em procurar o tal tesouro.

Às onze da manhã, uma camionete da prefeitura entrou na fazenda, com dois funcionários. Eles puseram o caixão no carro e foram embora, diante dos olhares dos empregados e do próprio fazendeiro.

– Pessoal, não tô me sentindo bem. Acho que vou me deitar. Se precisarem de alguma coisa, é só me chamar.

Tião voltou para a cama e ali permaneceu. Sem fome, nem quis almoçar, apesar da insistência de Maria. Por volta de cinco da tarde, a cozinheira tentou novamente falar com o patrão para que comesse.

Maria bateu várias vezes na porta do quarto, sem obter resposta. Preocupada, resolveu entrar. O patrão dormia. Tentou chamá-lo novamente, sem resultado. Pôs a mão no pescoço de Tião e sentiu a pele quente. O patrão devia estar com febre.

Aflita, Maria ligou para o médico. Em meia hora, o doutor chegou. O médico também chamou pelo fazendeiro, que não respondia. Colocou o termômetro e verificou que Tião Zonzura ardia de febre.

O doutor fez o que pôde para salvar o fazendeiro, mas foi inútil. Às sete da noite, Tião morreu.

No dia seguinte, não demorou para que os empregados começassem a falar que Tião morrera por causa do caixão e que fora amaldiçoado pelo fantasma do morto. Com os poucos recursos da cidade do interior, não foi possível identificar a causa da morte do fazendeiro.

O médico, que ouvira os comentários e soubera do baú, resolveu recolhê-lo, pois talvez ali estivesse a resposta sobre a causa da morte do fazendeiro. Com uma luva colocou o baú e as notas velhas espalhadas pelo chão dentro de um grande saco plástico.

Ao voltar ao seu consultório, enviou tudo à capital, pedindo que realizassem um exame laboratorial.

A resposta veio quinze dias depois. Tanto o pequeno baú quanto as notas encontravam-se completamente impregnados de um fungo venenoso. Um simples contato com aquele microrganismo armazenado no caixão por sabe lá quanto tempo poderia significar a morte. Ao colocar suas mãos no baú e manipular as cédulas velhas, Tião Zonzura se contaminara com o fungo, que, em algumas horas matou o infeliz homem. O mesmo resultado também se confirmou por uma segunda autópsia, mais detalhada, do cadáver de Tião, onde o tal fungo foi encontrado. Para isso, um médico da capital, conhecido do doutor do interior, viajou para ajudar no diagnóstico.

Enquanto olhava os exames, o médico lembrou-se da história dos exploradores de pirâmides no Egito, que morreram após violarem o túmulo de um faraó. O que se acreditava ser uma maldição era na verdade um fungo poderoso que atingira os pesquisadores e os matara.

Desgraça semelhante aconteceu a Tião Zonzura, o fazendeiro que desejava um tesouro e só encontrou a morte.

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