Bananada e Bananeira, os palhaços do mal

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A melhor parte do espetáculo ia começar. Era o que diziam sobre a performance de Bananada e Bananeira, dupla de palhaços do circo que acabava de chegar à cidade.

Bananada usava uma roupa azul com bolinhas vermelhas e uma cartola preta. Já Bananeira unia a tradicional maquiagem de palhaço a um terno azul de riscas de giz.

Em segundos, o público, principalmente as crianças, já dava gargalhadas estridentes. Em tempos de internet, em que a garotada se deixava dominar por videogames e outras tecnologias, dois palhaços conquistando o público soava como algo pra lá de saudosista e, de certa forma, mágico.

Bananeira sacou uma torta do paletó e enfiou na cara de Bananada. O outro retribuiu, pegando um balde cheio de água e jogando no companheiro.

Por cerca de meia hora, os dois levaram a plateia à loucura. Teve gente que sentia dores no maxilar de tanto rir. Ao final, os palhaços agradeceram, curvando-se e distribuindo beijos. Saíram correndo do palco, Bananeira à frente, levando chutes do companheiro.

Seu Ismael, um idoso de seus setenta e tantos anos, mal podia acreditar. Desde a infância não se divertia tanto. Após o espetáculo, ficou se lembrando de uma cena, há quase sete décadas, quando criança. Na ocasião, assistira a uma apresentação semelhante em sua cidade, no interior de São Paulo. Não lembrava o nome dos palhaços, porém tinha a impressão de que também se chamavam Bananada e Bananeira. Concidência?

“Impossível serem os mesmos”, deduziu. “Se, por um milagre, estivessem vivos, deveriam ser bem velhinhos e não jovens como esses que vi hoje”, imaginou.

Pensou na hipótese de serem netos dos artistas que assistira no circo em sua terra natal. Afinal, no circo, essas tradições passam de pai para filho.

Resolveu procurar a dupla e conversar com eles para tirar a dúvida.

Perguntou ao funcionário da bilheteria onde poderia achá-los. O homem indicou uma tenda lilás, a alguns metros.

Seu Ismael caminhou e logo achou a tal tenda, bastante chamativa pela cor.

Aproximou-se e parou em frente à tenda. De dentro, ouviu vozes e risadas. Não queria entrar repentinamente, o que pareceria uma grande falta de educação.

Decidiu bater palmas para chamar a atenção. Em pouco tempo, mãos abriram o pano da tenda. Era o palhaço com terno de risca de giz.

– Olá – saudou o palhaço, com uma expressão simpática.

– Oi, tudo bem? Acabei de ver o espetáculo de vocês. Gostei muito. Quis vir cumprimentá-los.

– Que gentil. Obrigado, meu bom homem. Por favor, quer entrar um pouco? Deixe-me apresentar o senhor ao meu parceiro.

– Será uma honra – respondeu Ismael.

O ambiente era escuro, com pouca iluminação proporcionada por uma dúzia de velas espalhadas pelo chão. Não havia muita coisa ali dentro, a não ser um puff branco e uma pequena mesa redonda, na qual estava uma garrafa de água mineral. Olhou ao redor à procura do outro palhaço, entretanto, não o viu.

Assustou-se ao sentir um toque no ombro. Virou-se e lá estava Bananada.

– Assustei o senhor? Me desculpe. Não era minha intenção.

Seu Ismael também o achou bem simpático.

– Meu filho, não foi nada.

Bananeira, então, falou:

– Esse gentil senhor veio nos dizer que gostou muito da nossa apresentação, Bananada.

O segundo palhaço abriu um riso.

– Que honra! Fico tão feliz em ouvir isso, Bananeira. Nosso ofício é levar um pouco de alegria á vida das pessoas. Tentamos tirar um pouco de sorriso delas, o que hoje não é tarefa fácil, com tanta amargura no mundo.

– Vocês são muito bons. Todo mundo riu bastante – elogiou Ismael.

– É o nosso trabalho – disse Bananeira, dando tapinhas no ombro de Ismael.

– Mas eu vim até aqui também por outro motivo. Quando era criança, assisti a um espetáculo de circo em minha cidade, em São Paulo. Era uma dupla muito parecida com vocês. Na verdade, achei muito semelhante o show de vocês com o deles. Até acho que eles se chamavam Bananada e Bananeira.

– Em que ano foi isso? – perguntou Bananada.

– Ah, meus filhos. Faz muito tempo, nos anos 40. Vocês não deviam nem ser nascidos.

Os dois palhaços sorriram para Ismael.

– Éramos sim – replicou Bananeira.

– Sim. Essa apresentação que você assistiu foi em 1943, não? – acrescentou Bananada.

Ismael ficou espantado.

– Como sabe disso?

– Porque nesse ano, estávamos nos apresentando pelo interior de São Paulo. Não foi em São Carlos que você nos viu? – indagou Bananeira, o que causou ainda mais espanto no velho Ismael.

– Foi! Só que como falei, vocês nem eram nascidos. Eu mesmo era criança. Tinha só cinco anos.

– Éramos nós mesmos – garantiu Bananada.

– Impossível. Do contrário, seriam velhinhos. Ou já teriam morrido.

– Digamos que conseguimos nos manter jovens – falou Bananeira.

O velho riu.

– Nem que quisessem. Podem falar a verdade. Vocês são netos daqueles palhaços.

– Netos? Somos os próprios – contestou Bananada.

– Claro que são. Tudo bem. Sei que palhaços não ficam revelando seus segredos. Bem, só vim para cumprimentá-los e dizer que gostei muito. Isso me fez voltar à infância. Agora vou indo.

– Tão cedo? – questionou Bananada.

– Sim, meus filhos. Já está tarde. Preciso voltar para casa. Minha velha está me esperando com uma sopa.

– Não. Por favor, fique um pouco mais – pediu Bananeira.

– Não posso mesmo. De repente, amanhã volto e trago minha senhora para assisti-los. Acho que ela gostará muito.

Ismael olhou para os dois palhaços e viu que eles não sorriam mais.

– Fique. Podemos mostrar umas brincadeiras que não fizemos no palco – pediu Bananada.

– Eu adoraria. Amanhã eu retorno com minha esposa.

– Tem certeza disso? – falou Bananeira.

– Sim. Prometo. Ela vai adorar.

– Acho que não.

Ismael olhou para Bananeira, que acabara de falar.

– Por quê?

– Porque amanhã o senhor não voltará.

– Claro que voltarei.

Ismael ficou intrigado com o que o palhaço acabara de dizer.

– O senhor não voltará – repetiu Bananada.

O velho começou a achar a situação estranha.

– Bem. Amanhã vocês verão que estarei na plateia.

– Infelizmente não – anunciou Bananeira.

Irritado, Ismael retrucou:

– O que você quer dizer com isso?

– Quero dizer que amanhã o senhor estará morto e não em nossa plateia.

Ismael sentiu um calafrio e respondeu com raiva:

– Eu não gosto dessas brincadeiras. Com licença, pois vou embora.

– Não irá – afirmou Bananada.

O velho sentiu um misto de temor e raiva.

– O que você disse?

– Que o senhor vai morrer agora.

O velho nem esperou mais e tentou correr para fora da tenda. Porém, sentiu as mãos dos palhaços o agarrando pelo pescoço. Ia dar um grito, mas uma das mãos tapou sua boca. O terror se apoderou de Ismael.

Os palhaços o fizeram deitar no chão, tapando sua boca para que não gritasse. Em agonia, tentou de todas as formas se libertar. Para aumentar seu terror, Bananeira e Bananada começaram a dar risadas estridentes.

Bananada o segurou firme ao chão, jogando seu corpo sobre o velho e tapando a boca do idoso. Enquanto isso, Bananeira puxou uma faca do paletó.

– Nada como rever um antigo fã – falou Bananeira.

O palhaço abriu um sorriso e apertou a faca com força.

Foram várias estocadas no peito de Ismael, até que o velho fechou os olhos para sempre.

Bananada levantou-se e cumprimentou o amigo. Ambos tinham as roupas manchadas de sangue.

– Esses fãs saudosistas são os piores. Odeio o passado. Imagine voltar setenta anos no tempo – reclamou Bananeira.

– Faz parte. Não se esqueça, meu amigo, que somos artistas, e temos a eterna tarefa de alegrar as pessoas, mesmo em nossos piores dias, nos momentos de amargura. O palhaço, por mais que seja um sofredor, tem de contentar o mundo – discursou Bananada.

– É verdade. Ainda bem que temos esses instantes de relaxamento, para aliviar essa árdua tarefa de encantar o público. Sinceramente, isso me cansa.

– Amanhã tem mais. E hoje tem marmelada? Tem sim senhor – brincou Bananada, dando uma gargalhada.

– Ora, rapaz, vamos nos livrar desse problema.

– Vamos sim. E depois, que tal uma cachaça?

– Com certeza. Me sinto tenso.

Do lado de fora, as últimas luzes se apagavam no circo. Porém, no dia seguinte, tudo iria recomeçar.

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