Que protejam a infância

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Sou um sujeito desprovido de religiosidade, ainda que sinta enorme simpatia pelas crenças afro-brasileiras, dada a proximidade delas com expressões culturais, como a música, a dança e o folclore. Curiosamente, neste domingo, 11 de agosto, manifestou-se em minha lembrança o tempo de garoto, quando no dia de São Cosme e São Damião corria pelas ruas e batia nas portas com os amigos em busca de doces. Juntava um bocadinho de guloseimas, que levava para casa e devorava.

Essas memórias eventualmente acordam o garoto que habita nosso interior e não se intimida com as décadas vividas. E Cosme e Damião despertam simpatia pela associação imediata justamente com os miúdos.

Gêmeos, que se acredita terem sido médicos caridosos, os dois morreram por volta do ano 300 d.C., degolados a mando do imperador de Roma, Diocleciano. Além de padroeiros de algumas profissões, pela lenda se tornaram protetores das crianças. Daí a relação com os doces distribuídos à gurizada no dia 26 de setembro por quem cumpre uma promessa. No sincretismo do Brasil, a dupla foi incorporada por religiões afro como entidades amigas dos pequeninos.

Há uma comovente crônica de Rubem Braga em que ele relaciona os dois santos à fé brasileira, escrita em 1957 e publicada no livro Ai de Ti, Copacabana. Mais do que fazer apologia cristã, o magnífico escritor capixaba demonstra preocupação com a Infância. Em determinado momento do texto, diz: “E protegei os meninos pobres dos morros e dos mocambos, os tristes meninos da cidade e os meninos amarelos e barrigudinhos da roça, protegei suas canelinhas finas, suas cabecinhas sujas, seus pés que podem pisar em cobra, e seus olhos que podem pegar tracoma – e afastai de todo o perigo e de toda maldade os meninos do Brasil, os louros e os escurinhos, todos os milhões de meninos deste grande e pobre e abandonado meninão triste que é o nosso Brasil, ó Glorioso São Cosme, Glorioso São Damião!”.

Cinquenta e seis anos após essa crônica, com tanta desigualdade e descaso pelas crianças que persistem neste país, vale a pena se ater a mensagem tão atual quanto a de Rubem Braga.

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