Banda sul-coreana Jambinai faz show memorável em Brasília

ImagemAproveitei para tirar foto, clicado por Michelle Souza, junto ao Jambinai e Pink Freud

Do outro lado da rua, o som ensurdecedor do festival Porão do Rock chegava à sala Funarte. Porém, não foi o suficiente para incomodar a performance da banda sul-coreana Jambinai. Esta também com um som para lá de potente conquistou a plateia que foi assisti-los, dentro da programação do Cena Contemporânea, evento multicultural que movimenta Brasília até o próximo domingo.

Metal, noise, punk, industrial, progressivo, oriental. Uma combinação de tudo isso em algo completamente original é como se pode definir o som do conjunto, um trio que reúne um baterista e baixista como convidados. O uso de instrumentação típica do Extremo Oriente com guitarra, baixo, bateria, computador e sopros cria uma muralha sonora.

Ora pesado como um Sepultura, às vezes ruidoso como um Sonic Youth, em certos momentos etéreo como um Cocteau Twins e em outras ocasiões próximo ao pop experimental de tonalidades sol-nascente de um Ryuichi Sakamoto, o Jambinai trabalha com a matéria-prima da inovação e rompe fronteiras. Esses diversos cenários se alternam e se fundem com naturalidade impressionante, que conduz o ouvinte a uma verdadeira viagem, como aquelas do space rock do Pink Floyd nos anos 70.

O guitarrista, cujo nome escrito em coreano no encarte do CD deles sou incapaz de traduzir, mostrou-se extremamente simpático. Em português só conseguia falar “obrigado” e o inglês saía com dificuldade. Apesar da barreira da língua, seu carisma cativou o publico. “Da próxima vez que vier ao Brasil, pretendo estudar um pouco de português para me comunicar com vocês”, disse. E emendou em tom brincalhão, arrancando risos: “Talvez deva estudar um pouco mais de inglês também”.

Essa foi a primeira vinda do Jambinai ao Brasil. Tanto a audiência como os músicos gostaram bastante. Prova disso é que os CDs e camisetas à venda se esgotaram num instante.

Após o show, eu e minha querida Michelle Souza fomos ao camarim conhecê-los. Muito simpáticos, deixaram-se fotografar conosco. E qual não foi nossa surpresa quando os músicos do grupo polonês Pink Freud, que estavam na plateia, deram as caras para cumprimentar os coreanos. Não perdemos a oportunidade de sair na foto junto aos membros de tão revolucionárias bandas, duas das mais importantes do cenário musical de nossos dias.

Parabéns aos organizadores do Cena Contemporânea por trazerem artistas tão interessantes a Brasília como esses que acabamos de mencionar.

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Perfil do Instagram livros_e_leitura comenta meu trabalho

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Nesta quarta-feira, 28 de agosto, tive mais um momento de excepcional divulgação para o meu trabalho de escritor. O perfil livros_e_leitura, do Instagram, publicou fotos e generosos comentários sobre meus livros Pedaço Malpassado e A Maldição de Fio Vilela. De propriedade da paraibana Carolina Steinmuller, de Campina Grande, esse perfil tem mais de 20 mil seguidores.

No texto, Carolina fala da honra de ter recebido os livros e escreve à frente: “Pelo enredo já vi que o mistério promete se estagnar nos ares aqui de casa”. Gostaria de falar que a honra e o prestígio de ganhar esse espaço também são meus. Sinceros agradecimentos para Carolina.

Aproveito para parabenizar a Carolina Steinmuller por manter um ambiente virtual que publica capas e comentários a respeito das obras. Quanto mais instrumentos tivermos para incentivar a leitura, melhor. E a internet tem se revelado poderosa ferramenta para propagar a cultura, em um país onde sabemos que a arte carece de apoio oficial. Iniciativas como a dessa jovem ajudam a superar um pouco a falta de compromisso dos poderes públicos.

Eu mesmo descobri na web uma grande aliada, por meio de pessoas engajadas em propagar a literatura como expressão enriquecedora do pensamento. O Instagram revelou-se a mim mais do que um site para postar fotos. Vejo como uma rede que permite estabelecer contato com gente muito legal, com interesses semelhantes aos meus, com as quais aprendo e compartilho minhas experiências literárias. Pessoas como Isabela Lapa e Kellen Pavão, do perfil e blog Universo dos Leitores, e Paula Ruffo, das Dicas de Livros, também do Instagram.

A jornada continua. Mais uma vez meu muito obrigado e um forte abraço a toda essa turma que comprova que existe sim vida inteligente no mundo, real e virtual.

O Baú

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Era conhecido por Tião Zonzura, devido ao gosto que tinha pela bebida. Zonzura é como o pessoal lá do interior de Goiás se refere ao efeito que a pessoa sente por estar zonza, após ingerir grande quantidade de álcool.

– O bão da bebida é a zonzura – dizia Tião, orgulhoso ao consumir certa quantidade de pinga.

Outra frase que falava com frequência é que seu sonho era ter sido cachaceiro.

– Eu tinha um primo que só ficava bebendo, enquanto eu trabalhava catorze horas por dia, sô! – relatava.

Após anos de trabalho incansável na lavoura e na criação de gado, Tião conquistara para si uma vida mais tranquila. Sua propriedade crescera e ele tornara-se um homem rico. No fim do dia, gostava de ficar na porta de casa olhando suas terras, que pareciam não ter fim.

Porém, um dia, a má sorte cruzou o caminho de Tião Zonzura.

Um dos seus empregados num trator levantava a terra em uma área a cerca de trezentos metros atrás da casa. A ideia era fazer um laguinho para criar peixes. De repente, o homem no trator sentiu que a escavadeira encostara em algo sólido.

– Tem alguma coisa aí embaixo, Seu Tião.

O empregado desligou a escavadeira. Desceu do trator e com a ajuda de outro funcionário da fazenda foi até o buraco para ver do que se tratava. Com as próprias mãos, tiraram a terra, para descobrir que ali estava um enorme pedaço de madeira escuro.

– O que será isso? – perguntou Tião Zonzura.

Com pás, os dois trabalhadores cavaram ao redor e viram, para espanto geral, que a coisa enterrada era um caixão.

– Meu Deus do céu! – gritou um deles.

Tião correu para perto dos rapazes.

– Enterraram alguém nas minhas terras, sô!

O fazendeiro então se lembrou das histórias que narravam que existia muito cadáver enterrado nas redondezas. Antigamente, como não havia cemitério na cidade, as famílias costumavam a sepultar seus mortos perto de onde moravam.

– E o que a gente faz com isso, Seu Tião? – perguntou o empregado do trator.

– Melhor não mexer com isso não, homem. Ocê não é doido de abrir o caixão e tirar o defunto daí. Olha que ele vai voltar pra puxar seu pé.

– Deus me livre e me guarde, Seu Tião! – disse o rapaz, fazendo o sinal da cruz com cara de assustado.

Tião deu uma risada.

– Deixa de ser frouxo. Conversa! Tô brincando com ocê. E esse negócio de fantasma lá existe?

– Olha, Seu Tião, meu pai me falou uma vez que viu um espírito ali perto do rio.

– Conversa! Seu pai, com todo respeito, devia era ter tomado umas canas pra ver alma do outro mundo.

Pensativo, Tião Zonzura achou melhor guardar o caixão em algum lugar até decidir que fim dar àquilo.

– Vamos fazer o seguinte. Chamem o resto do pessoal e carreguem esse caixão ali pra perto do celeiro. Amanhã, telefono à prefeitura pra eles darem um jeito de pegar isso e levar pro cemitério. Até porque vamos precisar fazer o lago e aí esse caixão não pode ficar.

Conforme a ordem do patrão, os empregados retiraram o caixão e o carregaram para perto do celeiro, a alguns metros da casa. Tião não deixou de notar o temor nos olhos dos funcionários, como se tivessem profanado algo sagrado. Mas, obedeciam cegamente às ordens do chefe sem questionar nada, pois ninguém queria perder o emprego.

– Acho que vou à missa hoje – disse um deles.

– Que missa o quê! Ocê vai é tomar cachaça que eu sei – repreendeu Tião.

Os homens olharam para ele, com medo. Pareciam perguntar com seus olhares se o patrão realmente tinha a intenção de largar aquele caixão ao ar livre, no meio da fazenda.

– Deixem isso aí e vão pra casa. Amanhã ligo pra prefeitura e a gente resolve isso.

Já era fim de tarde. Os trabalhadores se dispersaram.

Tião deu uma boa olhada no caixão. Não tinha a menor ideia de quanto tempo aquilo teria. Aparentemente, a madeira, apesar de envelhecida, não trazia rachaduras ou qualquer furo.

Como já escurecia, Zonzura voltou pra casa. Após tomar um banho, jantou um delicioso carneiro que a cozinheira havia preparado.

– Isso aqui tá bão, sô. Delícia esse carneiro, Maria.

– Obrigado, Seu Tião. Os meninos mataram hoje de manhã.

– Bão, sô.

Às oito horas da noite, dispensou a empregada, que partiu.

Como de costume, pegou uma garrafa de cachaça e colocou sobre a mesa, junto com um copo. Enquanto tomava a pinga, ia pensando no caixão. Lembrou-se de várias histórias que contavam que, antigamente, muitas pessoas quando morriam pediam para ser enterradas com alguns de seus pertences, como joias e dinheiro. Havia relatos de verdadeiros tesouros guardados em caixões, o que despertava o interesse do povo. Volta e meia, aparecia algum doido cavando atrás dessas supostas riquezas.

Começou a passar pela cabeça de Tião a possibilidade de abrir o caixão. Quem sabe o que não estaria escondido ali? Questionou que mal haveria de retirar algo de um morto. O defunto não ia precisar de nada. Depois, dava novo enterro digno e tudo se resolvia. A vontade de fazer aquilo foi crescendo a cada gole de pinga. Num determinado momento, apesar da excitação, Tião fechou os olhos e deu um cochilo.

Estava diante do caixão. Ia se aproximar quando ouviu um barulho vindo de dentro. Apavorado, recuou.

Parecia um gemido.

Paralisado de medo, Tião percebeu que a tampa do caixão se abria. Uma mão branca como gelo foi a primeira coisa que viu. Essa mão levantou a tampa do caixão. Tião pensava apenas em sair correndo, no entanto, não conseguia se controlar. Foi aí que uma figura se levantou. Era um homem idoso, vestido de negro. A criatura saltou do caixão e ficou à frente do fazendeiro.

Seus cabelos eram brancos e os olhos, vermelhos como fogo. O ser sinistro estendeu a mão direita na direção de Zonzura, apontando o dedo indicador, como que fazendo um alerta. Então, com uma voz cavernosa, falou:

– Tião, escute o meu aviso. Se abrir esse caixão, a desgraça cairá sobre você.

Tremendo loucamente, o fazendeiro queria gritar, só que a voz não saía. Nisso, o cadáver começou a andar em sua direção, falando:

– Se abrir o caixão, vai encontrar a morte e a maldição eterna. Vai pro inferno!

Quando o defunto chegou bem perto, finalmente, Tião conseguiu dar o grito tão desejado.

– Meu Deus!

Tião pulou da cadeira. À sua frente, a garrafa de pinga quase vazia.

Para seu alívio, constatou que fora apenas um sonho.

Mais calmo, respirou fundo. Passou a mão no rosto e percebeu que suava. Pegou a garrafa e despejou o resto da pinga no copo. Virou a bebida num só gole.

Caminhou até a janela e olhou para a noite estrelada. O pensamento sobre o tesouro do caixão voltou à sua mente, mais forte ainda.

– Quer saber de um negócio? Vou abrir o caixão. O sonho serviu só pra me dizer que esse negócio de desgraça é tudo besteira. Sonho é sonho. Se tiver algo valioso ali, vai ser meu. E homem de verdade não tem medo nem de fantasma e nem de defunto.

Tião saiu de casa rumo ao celeiro. O caixão permanecia ali, como seus empregados o haviam deixado.

– Seu Defunto: se tem alguma riqueza aí, ela agora é minha. Dinheiro pra morto não tem serventia.

Decidido, puxou a tampa. Fez uma força tremenda e conseguiu arrancá-la. Mas a coragem diminuiu quando Tião encarou o cadáver, uma caveira com cabelos brancos. Vestia uma roupa negra, semelhante à da criatura do sonho.

Por um instante, pensou em desistir, no entanto, algo o impediu. Por sobre o peito do cadáver estava um pequeno baú preto. A imagem do objeto estimulou novamente a imaginação do fazendeiro, que vislumbrou um tesouro ali dentro, como moedas de ouro e joias.

Rapidamente, Tião pegou o baú e fechou o caixão, para se ver livre daquele esqueleto.

– Então é verdade: um tesouro! Vou ficar mais rico ainda.

Tião abriu o pequeno baú com facilidade. Estava cheio de notas, porém, não tinham qualquer valor. Era dinheiro antigo. Irritado, o fazendeiro mergulhou a mão no bauzinho e amassou as cédulas com as mãos, jogando-as para o alto. Enfiou novamente a mão e, abaixo de uma última nota, sentiu algo metálico. Tirou a nota e, outra vez, para sua decepção, encontrou apenas um velho crucifixo de metal todo enferrujado, que também retirou do baú e jogou fora.

– Então esse era o tesouro? Que diabo!

Com raiva, Tião Zonzura arremessou o pequeno baú contra a parede do celeiro. Desanimado com o resultado pífio da empreitada, voltou para casa.

Abriu outra garrafa de pinga e tomou mais dois copos. Cansado, resolveu ir se deitar.

Acordou às oito da manhã, com o cheiro do café de Maria. Sentia o corpo mole. Achou que era ressaca da cachaça. Ligou para a prefeitura e pediu que viessem levar o caixão.

Antes dos homens da prefeitura chegarem, Tião contou aos empregados o ocorrido na noite anterior e mostrou o baú no chão, reclamando da inutilidade do objeto e rindo da perda de tempo em procurar o tal tesouro.

Às onze da manhã, uma camionete da prefeitura entrou na fazenda, com dois funcionários. Eles puseram o caixão no carro e foram embora, diante dos olhares dos empregados e do próprio fazendeiro.

– Pessoal, não tô me sentindo bem. Acho que vou me deitar. Se precisarem de alguma coisa, é só me chamar.

Tião voltou para a cama e ali permaneceu. Sem fome, nem quis almoçar, apesar da insistência de Maria. Por volta de cinco da tarde, a cozinheira tentou novamente falar com o patrão para que comesse.

Maria bateu várias vezes na porta do quarto, sem obter resposta. Preocupada, resolveu entrar. O patrão dormia. Tentou chamá-lo novamente, sem resultado. Pôs a mão no pescoço de Tião e sentiu a pele quente. O patrão devia estar com febre.

Aflita, Maria ligou para o médico. Em meia hora, o doutor chegou. O médico também chamou pelo fazendeiro, que não respondia. Colocou o termômetro e verificou que Tião Zonzura ardia de febre.

O doutor fez o que pôde para salvar o fazendeiro, mas foi inútil. Às sete da noite, Tião morreu.

No dia seguinte, não demorou para que os empregados começassem a falar que Tião morrera por causa do caixão e que fora amaldiçoado pelo fantasma do morto. Com os poucos recursos da cidade do interior, não foi possível identificar a causa da morte do fazendeiro.

O médico, que ouvira os comentários e soubera do baú, resolveu recolhê-lo, pois talvez ali estivesse a resposta sobre a causa da morte do fazendeiro. Com uma luva colocou o baú e as notas velhas espalhadas pelo chão dentro de um grande saco plástico.

Ao voltar ao seu consultório, enviou tudo à capital, pedindo que realizassem um exame laboratorial.

A resposta veio quinze dias depois. Tanto o pequeno baú quanto as notas encontravam-se completamente impregnados de um fungo venenoso. Um simples contato com aquele microrganismo armazenado no caixão por sabe lá quanto tempo poderia significar a morte. Ao colocar suas mãos no baú e manipular as cédulas velhas, Tião Zonzura se contaminara com o fungo, que, em algumas horas matou o infeliz homem. O mesmo resultado também se confirmou por uma segunda autópsia, mais detalhada, do cadáver de Tião, onde o tal fungo foi encontrado. Para isso, um médico da capital, conhecido do doutor do interior, viajou para ajudar no diagnóstico.

Enquanto olhava os exames, o médico lembrou-se da história dos exploradores de pirâmides no Egito, que morreram após violarem o túmulo de um faraó. O que se acreditava ser uma maldição era na verdade um fungo poderoso que atingira os pesquisadores e os matara.

Desgraça semelhante aconteceu a Tião Zonzura, o fazendeiro que desejava um tesouro e só encontrou a morte.

Bananada e Bananeira, os palhaços do mal

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A melhor parte do espetáculo ia começar. Era o que diziam sobre a performance de Bananada e Bananeira, dupla de palhaços do circo que acabava de chegar à cidade.

Bananada usava uma roupa azul com bolinhas vermelhas e uma cartola preta. Já Bananeira unia a tradicional maquiagem de palhaço a um terno azul de riscas de giz.

Em segundos, o público, principalmente as crianças, já dava gargalhadas estridentes. Em tempos de internet, em que a garotada se deixava dominar por videogames e outras tecnologias, dois palhaços conquistando o público soava como algo pra lá de saudosista e, de certa forma, mágico.

Bananeira sacou uma torta do paletó e enfiou na cara de Bananada. O outro retribuiu, pegando um balde cheio de água e jogando no companheiro.

Por cerca de meia hora, os dois levaram a plateia à loucura. Teve gente que sentia dores no maxilar de tanto rir. Ao final, os palhaços agradeceram, curvando-se e distribuindo beijos. Saíram correndo do palco, Bananeira à frente, levando chutes do companheiro.

Seu Ismael, um idoso de seus setenta e tantos anos, mal podia acreditar. Desde a infância não se divertia tanto. Após o espetáculo, ficou se lembrando de uma cena, há quase sete décadas, quando criança. Na ocasião, assistira a uma apresentação semelhante em sua cidade, no interior de São Paulo. Não lembrava o nome dos palhaços, porém tinha a impressão de que também se chamavam Bananada e Bananeira. Concidência?

“Impossível serem os mesmos”, deduziu. “Se, por um milagre, estivessem vivos, deveriam ser bem velhinhos e não jovens como esses que vi hoje”, imaginou.

Pensou na hipótese de serem netos dos artistas que assistira no circo em sua terra natal. Afinal, no circo, essas tradições passam de pai para filho.

Resolveu procurar a dupla e conversar com eles para tirar a dúvida.

Perguntou ao funcionário da bilheteria onde poderia achá-los. O homem indicou uma tenda lilás, a alguns metros.

Seu Ismael caminhou e logo achou a tal tenda, bastante chamativa pela cor.

Aproximou-se e parou em frente à tenda. De dentro, ouviu vozes e risadas. Não queria entrar repentinamente, o que pareceria uma grande falta de educação.

Decidiu bater palmas para chamar a atenção. Em pouco tempo, mãos abriram o pano da tenda. Era o palhaço com terno de risca de giz.

– Olá – saudou o palhaço, com uma expressão simpática.

– Oi, tudo bem? Acabei de ver o espetáculo de vocês. Gostei muito. Quis vir cumprimentá-los.

– Que gentil. Obrigado, meu bom homem. Por favor, quer entrar um pouco? Deixe-me apresentar o senhor ao meu parceiro.

– Será uma honra – respondeu Ismael.

O ambiente era escuro, com pouca iluminação proporcionada por uma dúzia de velas espalhadas pelo chão. Não havia muita coisa ali dentro, a não ser um puff branco e uma pequena mesa redonda, na qual estava uma garrafa de água mineral. Olhou ao redor à procura do outro palhaço, entretanto, não o viu.

Assustou-se ao sentir um toque no ombro. Virou-se e lá estava Bananada.

– Assustei o senhor? Me desculpe. Não era minha intenção.

Seu Ismael também o achou bem simpático.

– Meu filho, não foi nada.

Bananeira, então, falou:

– Esse gentil senhor veio nos dizer que gostou muito da nossa apresentação, Bananada.

O segundo palhaço abriu um riso.

– Que honra! Fico tão feliz em ouvir isso, Bananeira. Nosso ofício é levar um pouco de alegria á vida das pessoas. Tentamos tirar um pouco de sorriso delas, o que hoje não é tarefa fácil, com tanta amargura no mundo.

– Vocês são muito bons. Todo mundo riu bastante – elogiou Ismael.

– É o nosso trabalho – disse Bananeira, dando tapinhas no ombro de Ismael.

– Mas eu vim até aqui também por outro motivo. Quando era criança, assisti a um espetáculo de circo em minha cidade, em São Paulo. Era uma dupla muito parecida com vocês. Na verdade, achei muito semelhante o show de vocês com o deles. Até acho que eles se chamavam Bananada e Bananeira.

– Em que ano foi isso? – perguntou Bananada.

– Ah, meus filhos. Faz muito tempo, nos anos 40. Vocês não deviam nem ser nascidos.

Os dois palhaços sorriram para Ismael.

– Éramos sim – replicou Bananeira.

– Sim. Essa apresentação que você assistiu foi em 1943, não? – acrescentou Bananada.

Ismael ficou espantado.

– Como sabe disso?

– Porque nesse ano, estávamos nos apresentando pelo interior de São Paulo. Não foi em São Carlos que você nos viu? – indagou Bananeira, o que causou ainda mais espanto no velho Ismael.

– Foi! Só que como falei, vocês nem eram nascidos. Eu mesmo era criança. Tinha só cinco anos.

– Éramos nós mesmos – garantiu Bananada.

– Impossível. Do contrário, seriam velhinhos. Ou já teriam morrido.

– Digamos que conseguimos nos manter jovens – falou Bananeira.

O velho riu.

– Nem que quisessem. Podem falar a verdade. Vocês são netos daqueles palhaços.

– Netos? Somos os próprios – contestou Bananada.

– Claro que são. Tudo bem. Sei que palhaços não ficam revelando seus segredos. Bem, só vim para cumprimentá-los e dizer que gostei muito. Isso me fez voltar à infância. Agora vou indo.

– Tão cedo? – questionou Bananada.

– Sim, meus filhos. Já está tarde. Preciso voltar para casa. Minha velha está me esperando com uma sopa.

– Não. Por favor, fique um pouco mais – pediu Bananeira.

– Não posso mesmo. De repente, amanhã volto e trago minha senhora para assisti-los. Acho que ela gostará muito.

Ismael olhou para os dois palhaços e viu que eles não sorriam mais.

– Fique. Podemos mostrar umas brincadeiras que não fizemos no palco – pediu Bananada.

– Eu adoraria. Amanhã eu retorno com minha esposa.

– Tem certeza disso? – falou Bananeira.

– Sim. Prometo. Ela vai adorar.

– Acho que não.

Ismael olhou para Bananeira, que acabara de falar.

– Por quê?

– Porque amanhã o senhor não voltará.

– Claro que voltarei.

Ismael ficou intrigado com o que o palhaço acabara de dizer.

– O senhor não voltará – repetiu Bananada.

O velho começou a achar a situação estranha.

– Bem. Amanhã vocês verão que estarei na plateia.

– Infelizmente não – anunciou Bananeira.

Irritado, Ismael retrucou:

– O que você quer dizer com isso?

– Quero dizer que amanhã o senhor estará morto e não em nossa plateia.

Ismael sentiu um calafrio e respondeu com raiva:

– Eu não gosto dessas brincadeiras. Com licença, pois vou embora.

– Não irá – afirmou Bananada.

O velho sentiu um misto de temor e raiva.

– O que você disse?

– Que o senhor vai morrer agora.

O velho nem esperou mais e tentou correr para fora da tenda. Porém, sentiu as mãos dos palhaços o agarrando pelo pescoço. Ia dar um grito, mas uma das mãos tapou sua boca. O terror se apoderou de Ismael.

Os palhaços o fizeram deitar no chão, tapando sua boca para que não gritasse. Em agonia, tentou de todas as formas se libertar. Para aumentar seu terror, Bananeira e Bananada começaram a dar risadas estridentes.

Bananada o segurou firme ao chão, jogando seu corpo sobre o velho e tapando a boca do idoso. Enquanto isso, Bananeira puxou uma faca do paletó.

– Nada como rever um antigo fã – falou Bananeira.

O palhaço abriu um sorriso e apertou a faca com força.

Foram várias estocadas no peito de Ismael, até que o velho fechou os olhos para sempre.

Bananada levantou-se e cumprimentou o amigo. Ambos tinham as roupas manchadas de sangue.

– Esses fãs saudosistas são os piores. Odeio o passado. Imagine voltar setenta anos no tempo – reclamou Bananeira.

– Faz parte. Não se esqueça, meu amigo, que somos artistas, e temos a eterna tarefa de alegrar as pessoas, mesmo em nossos piores dias, nos momentos de amargura. O palhaço, por mais que seja um sofredor, tem de contentar o mundo – discursou Bananada.

– É verdade. Ainda bem que temos esses instantes de relaxamento, para aliviar essa árdua tarefa de encantar o público. Sinceramente, isso me cansa.

– Amanhã tem mais. E hoje tem marmelada? Tem sim senhor – brincou Bananada, dando uma gargalhada.

– Ora, rapaz, vamos nos livrar desse problema.

– Vamos sim. E depois, que tal uma cachaça?

– Com certeza. Me sinto tenso.

Do lado de fora, as últimas luzes se apagavam no circo. Porém, no dia seguinte, tudo iria recomeçar.

Pacto com a entidade noturna

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Sempre tenho essa sensação quando durmo, de que algo me puxa para fora do corpo e me conduz a uma viagem astral.

No último domingo, este fato voltou a ocorrer. Desta vez, estava disposto a descobrir que ser provoca esse incidente sobrenatural. Tão logo comecei a sentir costumeiros impulsos chacoalhando meu corpo, abri os olhos.

Para minha surpresa, e com temor, sobre mim pairava uma forma negra, difusa, como uma enorme sombra. Criei coragem e resolvi encarar aquilo, o que quer que fosse.

Primeiro, ergui meu braço em sua direção, abrindo os dedos, como se fizesse uma saudação.

Em seguida, falando por meio de meus pensamentos, disse o seguinte àquela forma: “Por favor, me ajude. Só você pode tornar meus sonhos reais. Façamos um pacto. Quero conquistar tudo o que tenho direito. Aperte minha mão!”.

Então, das sombras, formou-se uma mão negra, que veio ao encontro da minha mão, como que para selar o acordo. Senti a força daquele aperto e, então, adormeci, perdendo-me em meus sonhos.

Estava feito.

Que protejam a infância

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Sou um sujeito desprovido de religiosidade, ainda que sinta enorme simpatia pelas crenças afro-brasileiras, dada a proximidade delas com expressões culturais, como a música, a dança e o folclore. Curiosamente, neste domingo, 11 de agosto, manifestou-se em minha lembrança o tempo de garoto, quando no dia de São Cosme e São Damião corria pelas ruas e batia nas portas com os amigos em busca de doces. Juntava um bocadinho de guloseimas, que levava para casa e devorava.

Essas memórias eventualmente acordam o garoto que habita nosso interior e não se intimida com as décadas vividas. E Cosme e Damião despertam simpatia pela associação imediata justamente com os miúdos.

Gêmeos, que se acredita terem sido médicos caridosos, os dois morreram por volta do ano 300 d.C., degolados a mando do imperador de Roma, Diocleciano. Além de padroeiros de algumas profissões, pela lenda se tornaram protetores das crianças. Daí a relação com os doces distribuídos à gurizada no dia 26 de setembro por quem cumpre uma promessa. No sincretismo do Brasil, a dupla foi incorporada por religiões afro como entidades amigas dos pequeninos.

Há uma comovente crônica de Rubem Braga em que ele relaciona os dois santos à fé brasileira, escrita em 1957 e publicada no livro Ai de Ti, Copacabana. Mais do que fazer apologia cristã, o magnífico escritor capixaba demonstra preocupação com a Infância. Em determinado momento do texto, diz: “E protegei os meninos pobres dos morros e dos mocambos, os tristes meninos da cidade e os meninos amarelos e barrigudinhos da roça, protegei suas canelinhas finas, suas cabecinhas sujas, seus pés que podem pisar em cobra, e seus olhos que podem pegar tracoma – e afastai de todo o perigo e de toda maldade os meninos do Brasil, os louros e os escurinhos, todos os milhões de meninos deste grande e pobre e abandonado meninão triste que é o nosso Brasil, ó Glorioso São Cosme, Glorioso São Damião!”.

Cinquenta e seis anos após essa crônica, com tanta desigualdade e descaso pelas crianças que persistem neste país, vale a pena se ater a mensagem tão atual quanto a de Rubem Braga.