Conto musical

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Quando compôs a música Café no Centro Clínico o fez em homenagem a um grande pianista e compositor que admirava. Achava que a música tinha tudo a ver com seu ídolo.

A canção era um misto de bossa nova com um jazz cheio de suingue, com harmonias intrincadas no piano e um ritmo cheio de energia, puxado por metais. A letra… a letra tinha ares surreais e de humor. Contava a história de um paciente em um hospital, na mesa de cirurgia, a degustar um delicioso café da manhã pré-operatório, acompanhado do seu amor. Todo mundo elogiou.

O tema estava gravado num cassete. Seu sonho era mostrá-lo ao compositor que lhe inspirara.

Certo dia, numa loja de discos em Ipanema, enquanto procurava LP’s de jazz, viu o músico entrar. O vendedor correu para saudá-lo. Não pôde acreditar naquilo. A fita estava ali em seu walkman. E o jovem ainda usava um aparelho desses em plena era do MP3.

Por alguns segundos, uma série de pensamentos passou por sua cabeça. Tratava-se da chance de conhecer seu mestre, de lhe mostrar o tributo, de quem sabe se tornar amigo do maioral. Talvez ele gostasse da música e resolvesse gravá-la. Poderia até chamar o jovem compositor para participar do registro. De certo, o mestre daria alguns pitacos e sugeriria mudanças. Não haveria problema. Faria o que fosse necessário para concretizar o sonho.

Enquanto o vendedor saiu em busca de um CD de Bud Powell, nosso herói chegou perto do grande instrumentista.

– Olá. Sou seu fã – apresentou-se.

Para sua felicidade, o músico o recebeu com um sorriso, cheio de simpatia.

– Prazer, meu amigo.

– Sou seu fã faz muitos anos.

– Obrigado. Quer um autógrafo? – perguntou o artista consagrado.

Confuso, o rapaz respondeu:

– Sim, claro.

Não tinha nem uma folha de papel consigo. Correu até o vendedor e pediu uma folha e uma caneta. O vendedor, que o conhecia, prontamente lhe entregou o pedido. Correu de volta ao ídolo.

– Para quem assino?

– Tijolo. É meu nome artístico!

O músico autografou e lhe entregou a folha com a caneta rindo. A introdução tinha sido feita. Agora precisava mostrar a canção.

– Oi, eu também sou músico – falou o rapaz.

– Ah que legal.

– Componho e faço umas gravações. Tenho algum material pronto para um CD solo.

– Fantástico.

– Inclusive, aqui trago uma fita de uma canção de minha autoria em sua homenagem.

– Sério? Que ótimo. Quero ouvir.

Desesperado, o rapaz começou a rebobinar a fita, ouvindo pelo fone, para ver se encontrava a canção, sob os olhares atentos do mestre.

– Deve estar aqui, em algum lugar. Vou achar.

Rebobinou a fita. Avançou, voltou e nada. Devia ter seguido o conselho dos amigos e comprado um Ipod. Maldito K-7. Realmente ninguém mais se daria ao luxo de usar uma coisa imprestável dessas.

Nisso, o vendedor voltou com o CD.

– Está aqui.

– Quanto é?

– Sessenta reais.

– Embrulha pra mim.

– Vai pagar com cartão?

– De crédito.

O músico acompanhou o vendedor para passar o cartão. O rapaz mexia na fita de todo jeito e nada do Café no Centro Clínico. “Será que peguei a fita errada?”, pensou.

Em poucos minutos, o vendedor passou o cartão e embrulhou o CD. O músico voltou até o jovem.

– Achou a música?

– Nada. Mas deve estar aqui.

– Olha só: vou ter que ir embora. Tenho que viajar a São Paulo. Vou tocar lá com uma orquestra. Tô sempre na área. Moro na Barão da Torre. Se quiser, faça uma cópia pra mim, em CD, ou num pendrive, e deixa com o Carlinhos que depois pego aqui na loja. Passa seu telefone junto. Te dou um retorno pra falar o que achei.

CD, pendrive. Essas palavras o atormentavam. A mesma distância do mundo digital correspondia à impossibilidade de divulgar seu trabalho para sua fonte de inspiração.

– OK – respondeu desanimado.

O pianista apertou sua mão e saiu pela porta, desaparecendo naquela tarde ensolarada.

Precisava agora correr para um estúdio, para passar o K-7 pra CD. Logo ele, um artista jovem e talentoso, moderno, que já gravava no formato digital, ter pedido ao engenheiro de som para fazer uma cópia no cassete. Pagou o preço por ser vintage.

Quando terminasse, traria a música à loja. Talvez passasse na Barão da Torre e deixasse o CD com o porteiro do prédio. Ou chamaria o mestre pelo interfone. Agora que se apresentara ao músico, teria que conseguir mostrar sua canção de qualquer maneira. De qualquer jeito.

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