Mestre do suingue brasileiro

Imagem

No final da década de 80, o cenário musical brasileiro era sombrio. A MPB vivia momentos de apatia. O rock estava dominado por umas porcarias como Capital Inicial e Engenheiros do Hawaii. O brega pop reinava nas paradas de FM e começavam a despontar gêneros de massa horripilantes como o sertanejo, o axé e o pagode.

Eis que a esperança surgiu em ritmo de suingue, com o primeiro disco de um conjunto chamado Ed Motta & Conexão Japeri. Começou ali a história de um gênio, o cantor, compositor e instrumentista Ed Motta. 

Esse artista surpreendeu pela precocidade. O líder do Conexão Japeri, então, contava apenas 17 anos. Apesar de ser um adolescente, Ed Motta fazia música adulta, o que se notava pela qualidade das letras e dos arranjos, que combinavam a energia do funk e do soul com a sofisticação harmônica do jazz, algo completamente alienígena no pop brazuca daquele período.

Músicas como Manoel, Seis da Tarde, Baixo Rio e Parada de Lucas revelavam amadurecimento que não parecia combinar com um garoto. O mais natural para alguém dessa idade seria montar uma banda clone de pós-punk inglês ou de new wave tardio com letrinhas de qualidade duvidosa. Felizmente isso não ocorreu com Ed. 

De início, o jovem músico foi alardeado pela mídia como “o sobrinho de Tim Maia”. Porém, logo mostrou que tinha identidade própria e que trilharia caminhos bem diferentes do Síndico. Aliás, se dependesse do tio para se dar bem, passaria fome, pois Tim Maia, ao contrário de outros famosos que apelam ao nepotismo para promover os parentes, fazia era detonar o filho de sua irmã. 

Nos anos seguintes, Motta só cresceu como artista. Incorporou novas influências, como a da MPB, que no começo da carreira defenestrara, do blues, da música eletrônica e de trilhas de cinema.

Nos palcos, suas performances levam a plateia ao êxtase, pela habilidade com vários instrumentos, pelo seu timbre e pelos improvisos com vocalizações, de scats à simulação de sons diversos. 

Tive oportunidade de conhecer Ed Motta pessoalmente num Festival de Cinema de Brasília nos anos 90, quando o entrevistei pela primeira vez. O cara agiu de forma extremamente simpática. Lembro dele tomando um conhaque e pedindo para o garçom “dar uma choradinha”. 

Anos depois, o reencontrei na Galeria do Rock, em São Paulo, onde de vez em quando eu ia comprar discos e camisetas. Colecionador de vinis, lá estava ele a vasculhar prateleiras na Baratos Afins. Mais uma vez, portou-se de forma bastante cordial, nada a ver com a atitude de muitos desses pop stars que vemos por aí. 

Depois, houve outras entrevistas por telefone. Também assisti a shows, solo, com banda e, há pouco tempo, com a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro, em Brasília, no meio da rua.

Cada vez que o vejo em ação, sinto que se trata de uma figura que ainda pode fazer muito pela nossa música. Novamente vivemos tempos de banalidade e de lixo nas paradas de sucesso, com sertanojo universotário com cantores de cabelo à la KLB, rock e pop de péssima qualidade com Restart e afins, funk carioca, …  a lama não tem fim. Mas, felizmente, temos Ed Motta! 

 

Anúncios

6 pensamentos sobre “Mestre do suingue brasileiro

  1. Também acho ele legal e o repertório que ele carrega consigo mas um tempo atrás parece que ele umas disse coisas nada ver em algumas entrevistas, ou em alguma rede social, não lembro exatamente, sei que rolou uma antipatia geral na época.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s