Que frio

Calafrio e falaquente!

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Páginas resfriadas

Um resfriado me derrubou.

Me deixou mal.

Minha caneta secou. Meus dedos ficaram sem força pra teclar.

Meu nariz entupiu. Não posso respirar e nem falar.

Mas estou me recuperando.

Nisso, meu computador também deu pau.

O ventilador do desk não funciona. Ao contrário da minha situação, ele não se resfriou.

Um técnico veio e verificou. Por enquanto está OK. Fique de olho. Se ele esquentar novamente, chame o pronto-socorro.

E foi isso.

Amanhã, eu volto.

Baixaria em ritmo bate-estaca

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Inteligência é tudo que não se vê num baile funk

A música brasileira, infelizmente, parece cada vez mais contaminada pelo lixo. Não é de hoje esse fenômeno. Já se vão quase três décadas desde que gêneros de massa, sem qualidade, começaram a tomar o lugar dos grandes artistas na mídia e no gosto das classes mais altas.

O funk é um dos estilos que dominam o gosto duvidoso. Trata-se de uma música execrável, um bate-estaca de letras chulas que apenas no nome guarda semelhança com o funk americano, sonoridade de gênios como Curtis Mayfield e George Clinton. Se o original dos Estados Unidos, bem assimilado no Brasil por grupos como a Banda Black Rio, apresentava caráter libertário, contra o racismo e a opressão dos negros, a versão carioca escraviza as mentes dos seus apreciadores.

Musicalmente pobre, nas letras o funk nacional demonstra possuir QI negativo. As temáticas não variam; dizem respeito principalmente à apologia ao crime e à exaltação do sexo banalizado, da dominação do homem pelos sentidos, que o igualam a uma besta fera.

Longe aqui de querer transmitir um discurso moralista. Pelo contrário, acredito na liberdade sexual. Porém, esse som está longe de ser algo liberal. O funk prega a submissão da mulher, transformada num simples objeto. Objeto muito burro, diga-se de passagem, já que as cantoras de sucesso dessa tendência entoam letras que as humilham, agridem e insultam. No enredo desses hits, coisas do tipo “dá c… é bão” ou “mete na minha x…”. Um roteirista de filmes pornôs consegue produzir textos mais inteligentes.

Do ponto de vista performático, o cenário piora. Assistir a cenas de um baile funk dá a impressão de que seus participantes ainda vivem numa sociedade tribal ou forma de organização ainda mais primitiva. Sociedade essa onde princípios básicos de civilidade parecem longe de chegar.

Uma das provas disso é que, recentemente, o Ministério Público começou a investigar um desses conjuntos de dançarinas, pois das quatro integrantes, responsáveis por uma coreografia imbecil chamada Quadradinho de 8, três são  menores de idade. O fato caracteriza exploração sexual das meninas, segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente. Vindo de uma música de tamanha pobreza artística e humana não poderíamos esperar atitude melhor.

Sinceramente, me pergunto se alguém com um mínimo de intelecto e sensatez vai gostar de um lixo desses. A resposta, claro, é não.

O gigante não dorme em serviço

Fotos: Marcelo Araújo

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Nessa quinta-feira (20), fui à manifestação na Esplanada dos Ministérios. Entre a felicidade e a tensão, entre a livre expressão e o vandalismo, no final das contas mais uma vez o saldo foi positivo, com aproximadamente 35 mil pessoas em protesto na região central de Brasília.

O que mais impressiona em todo esse movimento é a presença esmagadora de jovens na faixa dos 17 aos 25 anos, basicamente estudantes de ensino médio e universitários. Deu orgulho de ver gente tão moça já bastante consciente dos problemas do Brasil. Críticas mordazes a “medalhões” da política, como o pastor Marco Feliciano, anta fascista que se apropriou da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, defesa das minorias, exigência de serviços públicos de qualidade, crítica a gastos públicos excessivos com a Copa e a guerra à corrupção apareceram como temas mais frequentes da pauta.

O melhor de tudo: ontem não vi símbolo de partido politico. A mensagem estava nos cartazes e não nas bandeiras de legendas. Bandeira mesmo, só a do Brasil.

Infelizmente, mais uma vez vândalos, gente mal intencionada e apenas com vontade de promover baderna e quebra-quebra, causaram espetáculos lamentáveis. O maior deles ficou com a depredação e a invasão do Palácio do Itamaraty. Não tardou para que a polícia reprimisse com bombas de gás lacrimogêneo, cassetetes e as temidas balas de borracha. A multidão várias vezes disparou em pânico.

ImagemCarro da TV Bandeirantes é pichado por vândalos

Apesar desses episódios horrorosos que perseguem as manifestações pacíficas, felizmente não é a violência que prevalece. A cada dia, nas ruas, os jovens escrevem um novo capítulo da história do Brasil, com sua inteligência e vitalidade. A democracia se fortalece.

Pelé calado é um poeta

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O agora deputado e ex-atleta Romário há alguns anos cunhou uma frase que se tornou simbólica sobre uma das lendas do futebol mundial: “O Pelé calado é um poeta”.

Pois bem, hoje, Edson Arantes do Nascimento mais uma vez comprovou a veracidade da fala do Baixinho. Um vídeo na web mostra Pelé em uma série de afirmações recheadas de ufanismo tolo e que nada condiz com o momento de transformação pelo qual o país passa.

Com seu jeito tranquilão, o “Rei” tenta chamar a atenção para a importância de se apoiar a Seleção Brasileira. Ressalta que estamos na Copa das Confederações e que em um ano teremos a Copa do Mundo no Brasil.

Lá pelas tantas, apela a um depoimento no mínimo infeliz, ao pedir que o povo deixe de lado as manifestações para colocar o futebol nacional em primeiro plano. Por maldade, agindo a favor de grandes interesses econômicos, ou pelo total desconhecimento dos problemas do país, o fato é que o ex-jogador mais uma vez perdeu ótima oportunidade de permanecer em silêncio. Inclusive, colocou-se na contramão até mesmo das estrelas da Seleção, que defenderam os protestos.

Errou feio ao desqualificar críticas às mais graves questões nacionais: a precariedade do transporte público, da educação, da saúde e da segurança, entre outros temas.

No passado longínquo, Pelé brilhou como um artista da bola. Talvez seja o mais importante futebolista de todos os tempos. Porém, no presente, limita-se a assumir posições vazias e reacionárias. Ok, na democracia até os tontos têm direito de se pronunciar. Felizmente, desta vez, nem tantos lhe darão crédito.

Que lindo

Imagem: EBC

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O Brasil nunca mais vai ser o mesmo depois dessa imensa e linda onda de protestos que vão de Norte a Sul, nas capitais e no interior.

Não vou ficar aqui a repetir tudo o que já foi dito e se encontra estampado na grande mídia, sobre as reivindicações, etc e tal. Como a maioria das pessoas, me impressionei e entrei em êxtase com a juventude nas ruas, sem ligação com qualquer grande partido ou figura política, mostrando sua insatisfação por tanta coisa errada, mandando sua mensagem, na maioria das vezes pacificamente, e se expondo à violência da repressão policial com balas de borracha, sprays de pimenta e bombas de gás lacrimogêneo.

Tentaram frear esse movimento e chamaram-no de confuso. Não há confusão alguma. O recado é bem claro: o Brasil precisa mudar. E já está mudando, com todo esse povo na rua.

Só não gostaram do movimento os velhos políticos corruptos, as raposas que há décadas nos pilham. Esses são os maiores depredadores do patrimônio público brasileiro. Devem estar a se borrar de medo em seus gabinetes e mansões, pois sabem que a hora de acertar as contas parece estar chegando. Não à toa, alguns desses quadrilheiros, com a cara mais lavada, vão à TV falar que apoiam os protestos, que dentro da democracia e com respeito à ordem os manifestantes podem contar com todo apoio. Conversa! Na verdade, tentam esfriar os ânimos, para ver se passam despercebidos.

Mas o jovem não é bobo. Sabe que enquanto muitos morrem em hospitais públicos por causa das péssimas condições, fanfarrões enriquecem suas contas bancárias com nosso dinheiro. Sabe que ao mesmo tempo em que não há recursos para consertar ou comprar um aparelho médico por R$ 30 mil não faltam milhões usados na compra de ingressos de jogos para amigos de governantes ou em festas monumentais pseudo ufanistas de caráter cultural duvidoso.

Os tais sanguessugas vão pensar duas vezes antes de destruir uma área de preservação ecológica para construír um novo bairro residencial de luxo. Refletirão um pouco mais se quiserem derrubar um prédio histórico com a finalidade de erguer um centro comercial para beneficiar grandes empresários amigos e financiadores de suas campanhas.

Sim, o jovem sabe. Por isso ele está nas ruas. E nós temos de estar com ele na luta por um país melhor, num futuro que já começou.

Thelonious, gênio absoluto

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Nesta noite de cansaço, passeando com o controle remoto pela TV, dou de cara com uma joia dos documentários musicais: Straight, no Chaser, de 1988, sobre Thelonious Monk, um dos maiores pianistas de todos os tempos. O filme tem direção de Charlotte Zwerin e produção de Clint Eastwood.

Thelonious enquadra-se entre artistas que avançaram e com sua originalidade levaram a música a novos patamares, a exemplo de Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Duke Ellington e John Coltrane. Basicamente um autodidata, considerado um dos criadores do bebop, evoluiu para algo absolutamente peculiar, muito difícil de rotularmos.

Compositor e instrumentista, alcançava efeitos melódicos e rítmicos impressionantes com  poucas notas. Em sua obra, não há nada desnecessário, tudo se encaixa com perfeição. Deu vida a temas antológicos do jazz, entre eles Round Midnight, Ruby my Dear, Blue Monk e Epistrophy.

Straight, no Chaser conta a trajetória do pianista e utiliza principalmente imagens no palco e no backstage, em turnês no começo dos anos 60. As performances são de deixar qualquer um de queixo caído. Acompanhado de feras como os saxofonistas Johnny Griffin e Phil Woods, Thelonious se destaca quando a câmera foca os longos dedos do pianista deslizando por seu instrumento, com simplicidade e tranquilidade surpreendentes.

A produção também lança olhares sobre o ambiente pessoal de Monk. Em certa fase, ele começou a sofrer de transtornos mentais, como a esquizofrenia. O músico americano parecia viver em outra dimensão.

Volta e meia, rodava o corpo e olhava para o infinito, dizia frases aparentemente desprovidas de sentido e apresentava uma expressão apática. Sua esposa, Nellie Monk, aparece como guardiã do pianista, cuidando de cada detalhe daquela existência dispersa, da escolha das roupas ao acompanhamento das refeições.

No filme, percebem-se rompantes de agressividade, quando, insatisfeito com uma de suas interpretações, Thelonious para a banda em um tema e, horas mais tarde, dá uma pancada em uma persiana.

Quem visse um Monk alucinado no cotidiano e não o conhecesse dificilmente imaginaria o que aquele sujeito era capaz de fazer quando sentava ao piano. Ali, a introspecção tomava a forma de notas que cativavam o público, conforme se vê neste documentário.

Thelonious Monk morreu em 1982, vítima de uma hemorragia cerebral. O filme recupera as imagens sensíveis do enterro do instrumentista, cercado por seus antigos companheiros de jazz. Fim da pessoa, mas não de uma das obras mais influentes e maravilhosas da música. Foi uma figura ímpar e um revolucionário.