Howlin’

wolf

No caminho para meu quarto nesse motel de beira de estrada dou de cara com uma figura sentada num banquinho no estacionamento. O homem negro, alto e forte canta algo que identifico imediatamente como um blues. A letra me soa familiar.

I’m gonna get up in the morning Hit the Highway 49.

O sujeito tem uma voz meio grave, diferente, como a de um desenho animado. Sua voz carrega uma potência incrível e se espalha por todo o estacionamento do motel. Penso se não irá acordar os outros hóspedes. Afinal, já passa de uma da manhã.

I’ve been looking for my baby. My baby is on my mind.

Reconheço a letra de Highway 49, de Howlin’ Wolf.

O cara veste camisa branca, calça cinza e sapatos pretos levemente empoeirados. Não deixo de notar nele semelhança com aqueles velhos blues men, figuras que já pertencem a outra era.

Ele vira a cabeça para o lado, olha para mim, porém não se incomoda com minha presença e prossegue cantando. Presto atenção nele, até que não consigo conter um grito de espanto:

– É você mesmo?

O homem para imediatamente após meu berro. Temo que ele possa ter ficado puto com a minha interferência, porém, ele sorri de forma simpática.

– Eu mesmo.

Me aproximo e aperto sua mão, ainda sem acreditar.

– Howlin’ Wolf?

– E quem poderia ser? Apenas eu consigo cantar Highway 49 desse jeito, com essa intensidade.

Começo a me perguntar se não estou sonhando lá no meu quarto com tudo isso ou se não passa de alucinação.

– Mas você está morto?

– É o que dizem. Nunca me convenci disso. Até hoje pego meu carro por essa estrada, que nem sei onde vai dar, paro nalgum motel tipo esse aqui, tomo umas e continuo cantando e tocando. Outro dia teve uma jam maneira com o pessoal duma cidadezinha perto. Precisava ter visto. Há décadas não me animava tanto. Pode apostar nisso, rapazinho.

– Pensei que já tinha visto uma foto da sua sepultura na internet.

– Onde?

– Deixa pra lá – falei.

Ele puxa do lado do banco uma garrafinha de Bourbon. Destampa e dá um longo gole. Em seguida, estende pra mim. Recuso.

– Ando ruim pra beber.

– Não pode estar falando sério.

– É verdade.

Howlin’ recoloca a garrafa ao lado do banquinho e recomeça a cantar, ainda mais alto do que antes, Highway 49.

– Desculpe, mas não acha que está cantando alto? Pode acordar os outros hóspedes.

Ele para e me olha rindo.

– Filho, não há ninguém para ser acordado nessa espelunca. Tudo por aqui está esquecido.

Passo o olho pelo estacionamento ao redor dos quartos e, mentalmente, concordo com ele, pois o aspecto de tudo é desolador. O motel cai aos pedaços e mais parece um lugar fantasmagórico. “Isso aqui está numa merda de abandono. E por falar em fantasma, aqui estou eu conversando com o espírito de Howlin’ Wolf”, penso.

– Mande bronca, meu velho – peço.

– Vou cantar meu blues. Agora você também tem que cantar o seu, garoto. Lembre-se daquela estrada.

Eu me viro e olho para a pista perdida na escuridão, enquanto Howlin Wolf recomeça Highway 49.

I’ve been looking for my baby. Lord don’t think the girl can’t be found.

Dessa vez, ele me olha sério. Eu tenho uma imagem na cabeça e preciso resolver algo. Howlin’ parece adivinhar do que se trata.

– Adeus – despeço-me.

Howlin’ não para de cantar e agora também não tira o olho da estrada.

Corro para o meu carro, o velho Maverick cor caramelo. Num instante, manobro para tirá-lo da vaga e em segundos já estou frente à pista. Disparo na escuridão. Apenas os faróis do Maverick põem alguma iluminação na estrada.

– Vou cantar meu blues. Agora você também tem que cantar o seu, garoto.

As palavras de Howlin’ Wolf ecoam na minha cabeça. Uma melodia lamuriosa sai da minha boca como num passe de mágica e uma letra surge acompanhando.

Hey, hey, hey, dude. The red man will follow you. Hey, hey, hey, conrad. See the man in red. You got something he wants so bad. He’s coming to get you right there. The man in red. He lives in a hell of a place, And now he wants your soul and face. Oh Sweet Lucy Fair! My dear lady. Lucy Fair!

Enquanto acelero na estrada, um farol, a uns 500 metros, indica que outro carro se aproxima.

– Hey, hey, hey. Red man is coming to you!

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